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Insaciável: Terror aborda distúrbios alimentares

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Hana é uma estudante de medicina cujos distúrbios alimentares são apresentados literalmente nos créditos de abertura de Insaciável, novo longa que estreia essa semana e descortina uma série de situações que outros filmes vem pincelando por aí. Nossa jovem protagonista é um poço de contradições – e isso geralmente é um bálsamo para qualquer roteiro: ela tem uma relação muito ruim com seus pais mas é uma pessoa que busca aceitação exterior; se interessa emocionalmente por mulheres mas não consegue relaxar para essa realidade; cursa uma graduação onde o cuidado pelo outro será essencial, mas perde-se em uma autodestruição contínua, talvez não percebida. Temos em Hana uma personagem pedindo para ser analisada, e o terror entra no filme por uma porta cuja alegoria nem tenta esconder os fachos de normalidade espalhados. 

Falar sobre a saúde feminina, inclusive a mental, virou uma porta de entrada para o horror na atualidade. Acho que temos um ponto no cinema recente, talvez Titane de Julia Ducorneau, uma mudança de inflexão ao olhar para a mulher não como um corpo a ser abatido, somente, mas como uma estrutura emocional que precisa ser complexificada além do sangue que pode prover ao gênero cinematográfico – e inerente ao seu outro gênero de identificação. Insaciável pega carona a essa onda de ressignificação das ‘scream queens’ (ou, abrasileirando mesmo, as rainhas do grito) para mostrar as heroínas de filmes de terror não apenas em lugar próximo à passividade. A contextualização agora não nasce apenas do perseguidor de onde a trama ganha impulso, mas do discurso que sua protagonista apresenta. 

No caso, Hana é uma jovem insegura com o próprio corpo, que descobre de uma maneira surreal, a oportunidade de ganhar autoconfiança. Insaciável poderia vir tranquilamente com uma bula “crianças: não façam isso em casa!”, mas quem em sã consciência se proporia a algo parecido com o que a protagonista realiza? A visão de uma saída fácil, sem sacrifícios progressivos, também está no recente Segredo Obscuro e na mãe de ambos, A Substância – como (e pra quê) lutar contra quem se é? Com a chegada de um novo código estético, Hana ganha pontos com quem achava inacessível, mas com isso alcança também o contato com o mundo dos mortos, que passa a assombrá-la através do corpo que disseca nas aulas da faculdade. Esse corpo, igualmente feminino, que a assombra, é um corpo obeso – e sozinha, essa costura metafórica provoca diversas reflexões. 

A diretora australiana Natalie Erika James estreou em longas com um filme que conversava com outro aspecto do feminino, os laços familiares que recaem quase que inteiramente sobre a mulher em seu processo de tácita obrigatoriedade herdada pelo gênero, em Relíquia Macabra. Aqui, James avança mais no terreno gráfico que o cinema de gênero de seu país costuma embicar; a Austrália tem produzido títulos de curiosidade estética e temática impressionante, como The Loved Ones ou o badalado Babadook. Em Insaciável, a cineasta gasta suas ferramentas em criar um processo que sedução e repulsa em imagens de comidas coloridas que serão colocadas frente a frente com as cinzas humanas que serão ingeridas por Hana; não precisa se preocupar, nada é explícito do ponto de vista da grosseria de tal ato.

O problema de Insaciável é em lidar com os excessos que o roteiro igualmente escrito por James cria para a narrativa. O filme quer dar conta de uma série de situações dramáticas que não conseguem ser totalmente exploradas, porque o escoamento de tanto material não é natural. Uma gama de propostas de reflexão relativas ao feminino que são enfileiradas, tais como distúrbios alimentares, formas libertas de comunicação sexual, relação parental alquebrada, assombro sistemático de algo que nos habita (e não o oposto), e daí para mais, com direito a pelo menos uns dois plot twists. Se esteticamente tudo está resolvido a contento, a exploração do argumento da obra não se expande o tanto que deveria para abarcar o tanto que é apresentado. 

A sessão acaba se comprometendo, porque James é uma boa roteirista, o que faltou foi sua capacidade de perceber que, ao adicionar cada vez mais narrações para sua história, os elementos ficariam dispersos em determinado momento. Sua atriz, Midori Francis, já foi premiada pelo filme, mas também ela não consegue projetar o tanto que seu visível talento permite, porque são muitos conflitos para dar conta. Quando o filme parece ter um novo final além do que foi estabelecido e propõe um novo mergulho no abismo, o espectador tende a ficar extenuado com a continuidade do horror. De alguma maneira, se James queria nos conduzir a um universo onde a violência psicológica a que nos submetemos desde a infância se transformasse em horror corporal, ela consegue – ao menos parcialmente. 

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