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Matheus Ribs abre individual no Centro Cultural Correios 

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O artista visual carioca Matheus Ribs inaugura sua primeira exposição institucional no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Correios. Com curadoria de Clara Anastacia e Juão Nÿn, “Reencantar a terra” parte da ideia de que enfrentar a devastação ambiental exige também recuperar outras formas de relação com a terra e seus habitantes, baseadas na abundância, na reciprocidade, na espiritualidade e no cuidado.

Para Matheus, o processo colonial introduziu na América uma lógica de escassez em territórios historicamente marcados pela abundância. A exploração dos recursos naturais, a expropriação da terra, povos dominados e escravizados e a consequente produção da miséria aparecem, não como fenômenos isolados, mas como parte de um projeto histórico de transformação da relação entre sociedade e natureza.

Essa reflexão ganha forma em um dos painéis centrais da exposição, no qual uma mulher negra e uma mulher indígena carregam cestos repletos de alimentos tradicionais na América Latina (milho, mandioca, inhame, coco, banana, entre outros) que são também aqueles oferecidos aos orixás em diferentes práticas do candomblé. Sobre a terra, as personagens derramam água, evocando um ditado yorubá segundo o qual somente a água fresca apazigua o calor da terra.

A água torna-se, assim, um dos principais fios condutores da exposição. O artista recorre ao Itan (narrativa sagrada) de Oxum, no qual ela retira a água do mundo como forma de protesto por não ser ouvida pelos demais orixás. Sem água, a vida deixa de se reproduzir: as crianças não nascem, as plantas não crescem e os alimentos não prosperam. Quando Oxum é finalmente escutada, devolve a água à terra e a vida retorna. É nesse gesto que o artista identifica uma das chaves de sua exposição: a água como força capaz de reencantar a terra.

A partir dessa perspectiva, a mostra aborda os conflitos coloniais e contemporâneos em torno dos recursos hídricos: mineração, barragens, hidrelétricas e as diferentes formas de devastação. Em uma das séries, as sereias tornam-se representações dos rios brasileiros. Cada figura reúne, em seu corpo, referências ao povo indígena que vive às margens de determinado rio e a um peixe característico de suas águas. Tapajós, Paraguai, Doce, Xingu, São Francisco, Iguaçu e Tocantins aparecem, assim, como uma espécie de cartografia afetiva e espiritual do território brasileiro.

Segundo a curadora Clara Anastácia,”A pintura de Matheus Ribs não disputa apenas o que vemos; ela disputa a forma como o mundo pode voltar a se organizar. Se a pintura colonial ajudou a verticalizar a vida, Reencantar a Terra faz da figuração uma tecnologia de reconstituição da trama que nos liga à terra, às águas, aos encantados e uns aos outros.Ao percorrer a exposição, somos convidados a experimentar um pequeno deslocamento: sair da lógica do reconhecimento individual para recuperar a percepção da vida como parentesco, como interdependência e como responsabilidade compartilhada. Em tempos de exaustão política, ambiental e afetiva, Matheus Ribs nos lembra que talvez o gesto mais radical seja também o mais ancestral: reaprender a encantar a terra para que ela volte a nos encantar”.

Além disso, a exposição também destaca figuras da tradição popular e das cosmologias afro-indígenas, como Curupira, Caipora, Mãe d’Água, Saci e Aroni. Ao trazê-los para cenas de devastação ambiental, o artista questiona a transformação dessas entidades em personagens folclóricos e infantis, distantes de sua potência original. Para Matheus, o termo “folclore” contribuiu para retirar dessas figuras sua dimensão espiritual, política e cosmológica. Chamados de “encantados”, esses seres não são apenas personagens de histórias, mas forças que habitam e protegem a floresta, a água e a vida.

Nesse conjunto, o Saci ocupa um lugar especial como figura de interseção entre referências afro-brasileiras e indígenas. O artista aproxima o personagem de Aroni, entidade associada às folhas e aos segredos da floresta no candomblé, estabelecendo uma rede de correspondências entre diferentes tradições espirituais brasileiras.

Além das pinturas e desenhos, “Reencantar a Terra” marca um novo momento na produção do artista ao incorporar instalações. Um recipiente dedicado aos ancestrais da terra, preenchido por elementos associados à fartura e à alimentação.

A mostra “Reencantar a terra” tem abertura na quarta-feira, 19 de agosto, às 16h, e segue até o dia 10 de outubro. O Centro Cultural Correios fica na R. Visconde de Itaboraí, 20 – Centro. Funcionamento: de terça a sábado, das 12h às 19h. Entrada gratuita.

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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