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Muito Prazer: Jorge Furtado volta as comedias com tom erótico

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No auge da popularidade de um filme de quase 20 anos atrás, Jorge Furtado conseguiu um feito que não somente é raro, como me parece cada vez menos provável nos dias de hoje. Saneamento Básico deveria ser “mais um” título do diretor, naquele hoje longínquo ano de 2007; sua estreia não foi cercada de muita repercussão e o filme não foi um campeão de bilheteria. Estávamos de frente para um filme médio, desses que não são feitos mais hoje em dia; hoje em dia, o filme é um fenômeno de reconhecimento popular, de alcance invejável, um filme cujos diálogos são reproduzidos à exaustão – e merecidamente. O novo filme de Furtado, Muito Prazer, reproduz uma lógica expandida daquela situação, que acaba por formatar-se como seu mais bem sucedido longa desde então. 

A dinâmica da metalinguagem é um traço que Furtado não somente domina, como reapresenta sempre com toques particulares a cada nova investida. Assim como na obra protagonizada por Fernanda Torres e Wagner Moura, Muito Prazer parte de um grupo de pessoas (dessa vez reduzido, apenas três) que não desconfiam estar realizando Cinema, enquanto estão. Isso é reconfigurado para o nosso tempo que não precisa descobrir “o que é Cinema?”, mas sim que Cinema será feito com as ferramentas que nos dispõem hoje. O filme dialoga com a contemporaneidade ao dizer que todo ato cinematográfico é uma porção calibrada de Cinema em sua forma mais pura. E o encontro com Saneamento Básico vem justamente da crença maior de que esse ato é válido por si só, e se justifica enquanto obra. 

O argumento-base do filme tem um fundamento típico da comédia de costumes: um rapaz recebe de herança um motel falido e abandonado, e precisa encontrar ao lado da única funcionária restante uma forma de ganhar dinheiro com o que parece impossível – e o faz de maneira ilícita, ao filmar os clientes e lucrar com a venda de filmes pornô caseiros a partir das imagens que consegue nos quartos. Muito Prazer parte de uma ideia relativamente simples, mas que não é exatamente esgarçada; se sua estrutura pode remeter à história do próprio autor, o que é desenvolvido aqui é de profunda relevância em discussões atuais. E isso não é exatamente um ponto de convergência com o polo cinematográfico, em sua essência, mas vai além desse gatilho para conversar com a diferença entre o mundo analógico e a modernidade que nos rodeia. 

É muito bem-vindo que o filme seja protagonizado por um trio que faz parte do último processo híbrido, as pessoas que não nasceram reféns da tecnologia porque são anteriores ao tsunami provocado pela internet. É interessante também que o filme estreie uma semana depois de Só por uma Noite ser acusado de cândido em sua abordagem sexual, sendo que a pornografia aqui é tratada com humor, sem visão cafajeste sobre corpos ou situações. Muito Prazer é, dentro da pureza das relações que pretende mapear, um filme de abordagem quase transgressora a respeito do sujeito queer, mostrando um casal lésbico infiel, por exemplo. Sem julgar seus tipos, o roteiro de Furtado emenda situações muito engraçadas em que nenhum momento uma barreira parece ser rompida em relação a qualquer sintoma do nosso tempo, provando que o politicamente correto não é algo que precisa ser perseguido. Quando você desenvolve com honestidade uma narrativa, a obra acabará por reunir os predicados inerentes a você em sua formatação. 

O trio de protagonistas está muito bem dirigido, o que é tradicional vindo de Furtado, e apresentam performances uniformes na excelência. Daniel de Oliveira mostra um lado cômico que ele explorou pouco na carreira, com resultados que desconcertam pela sinceridade; os momentos onde o personagem se disfarça são especialmente divertidos, e o ator supera suas capacidades. Luisa Arraes talvez esteja em seu melhor momento no cinema, com uma personagem com liberdades que a atriz também ainda não tinha se comprometido antes. Samantha Jones é uma jovem atriz que estamos aprendendo a amar graças aos seus próprios dotes, e ela domina Muito Prazer a cada inserção. Janaína Kremer tem uma pequena entrada no filme, mas nos lembra porque nos encantamos por ela em outros filmes de Furtado. Como sempre, o cineasta imbui seu grupo de atores de características circenses, de uma sofisticação pouco usual que conversa muito enquanto trupe de espetáculo, onde conseguimos perceber a totalidade de seus esforços através de um empreendimento conjunto. 

O trabalho de montagem de Giba Assis Brasil, como sempre, entrega aos filmes de Furtado a dinâmica certa a suas produções no geral, e ao panorama da comédia em particular. É também graças a ela que o timing cômico dos diálogos arriscados do roteiro funcionam tão bem, como raramente uma comédia consegue: os risos rasgados e ininterruptos que Muito Prazer propicia. É bom reencontrar um autor que demonstra não ter perdido o melhor de sua verve, que mantém um zelo estético com seus filmes e que consegue unir o melhor dos dois mundos. Unindo um olhar sofisticado sobre seus personagens e um encontro amoroso entre seres tão mundanos, Jorge Furtado está de volta ao jogo em excelente forma. 

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