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O reator nuclear do riso Grace Gianoukas faz de ‘Dora’ uma antropologia existencial

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Gaúcho de berço, assim como a colossal Grace Gianoukas e o irrequieto encenador Gilberto Gawronski, o amansador de versos e domador de estrofes chamado Mario Quintana (1906-1994) aconselhava a homeopatia da andança nas páginas de seu “A Cor do Invisível”, de 1989. Dizia assim, profilaticamente: “A gente sempre deve sair à rua/ como quem foge de casa/ Como se estivessem abertos diante de nós/ todos os caminhos do mundo. / Não importa que os compromissos, / as obrigações, estejam ali…”. A problemática encarada pela personagem central de “Dora” – analgésico cênico contra o mau humor estrelado por Grace e dirigido por Gawronski – passa pelo desdém com que muita gente trata o conselho do poeta gaudério.     

Saiba mais sobre a peça!

O espetáculo é uma mistura de “Muito Além do Jardim” (“Being There”, 1979), de Hal Ashby (com Peter Sellers de jardineiro, alheio ao mundo real), com “No Natal A Gente Vem Te Buscar” (também de 79), de Naum Alves de Souza (1942-2016). A dramaturgia de Thereza Falcão, suave como pena de ganso ao falar dos engasgos de quem vive no pretérito, de modo imperfeito, evoca as referências supracitadas de filme e peça… de uma Nova Hollywood tardia e do Brasil dos fins da ditadura. 

A escrita dela detona uma granada de riso por segundo, mas sabe preservar sua leveza ao inventariar abandonos. A Dora do título abandonou-se num apartamento cheio de fantasmas, não do tipo espírito zombeteiro, mas sim daquele que se aboleta em fetiches de um passado que teve cara de comercial de margarina, ou seja, resquícios de uma vida familiar feliz. 

Ar-15 verborrágica, a metralhar ironias contra tias bêbadas de gim, tios de índole mansa, pai sonolento e cachorros empalhados, a Dora de Grace é uma Shirley Valentine que viu o bonde da vida passar, mas só fez sinal depois de o coletivo passar do ponto. Preferiu se plantar num dos andares de um prédio assombrado por lembranças, a acumular saudades… e mágoas. 

Cenógrafo em tempo de madureza criativa, no apogeu de suas boas ideias, Nello Marrese adereça o relicário entre quatro paredes onde Dora vive qual fosse um relicário. Indiana Jones iria se empapuçar com o tesouro arqueológico de uma vivência proustiana. Já o síndico do local se aborrece com as baratas que advém de seu acúmulo de quinquilharias, a formar um coro com outras vizinhas.   

Numa dramaturgia mais convencional, o tanto de cacareco ali juntado seria um refúgio. Mas na marota antropologia existencial de Thereza Falcão, cada raspa e cada resto de um outrora que ficou para trás é um cemitério a ser desejado. A sagacidade de seu texto, encenado com destreza por Gawronski, é se desenhar como uma P.A. (progressão aritmética) de surpresa. A gente nunca sabe qual será a reação de Dora ao inventaria-se e a descobrir-se.  

Sob o fino desenho de luz de Vilmar Olos – que deixa o Ontem se fazer presente como uma sombra a se esvanecer no sol do Presente -, Grace sabe que precisa sacudir a poeira. Difícil é lidar com os excessos que a sufocam. Mas ela é propositiva. E Grace é um reator nuclear de riso. 

Seu riso, filtrado pela sagacidade de Thereza, leva a plateia a outro Quintana, dos mais urgentes: “A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa. / Quando se vê, já são 6 horas: há tempo… / Quando se vê, já é 6ªfeira… / Quando se vê, passaram 60 anos… / Agora, é tarde demais para ser reprovado… / E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade, /
eu nem olhava o relógio.”
 Fez ele muito bem. Grace demora, mas se quintana de uma maneira que nos liberta.  

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