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“Surda” urra amor pela vida num megafone de sinceridade

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Existe um longa-metragem nacional, consagrado com vários prêmios no Festival de Gramado de 2014, chamado “A Despedida” onde passamos um vasto trecho do primeiro ato sob uma onda de ruídos, como se o som não estivesse mixado, até uma sequência na qual Nelson Xavier (1941-2017) põe um aparelho no ouvido. Ali a sonoridade se equaliza… à plenitude. Reside aí a mais sinestésica tentativa de tradução, nas artes, da ausência que a perda auditiva causa. Com uma referência dessa precisão em jogo, na genealogia das narrativas sobre corpos fora do que se convenciona como norma, torna-se ainda mais louvável o desempenho de Benedita Casé ao expressar, no espetáculo “Surda”, como é viver com um diagnóstico clínico que tem o silêncio como progressão aritmética incontornável.        

É no palco que ela faz uma autopsia em corpo vivo do processo de autorrenovação da dramaturga e roteirista Julia Spadaccini a partir da sua própria experiência na rarefação do verbo “ouvir”. A simbiose entre autora e intérprete, no istmo poético da direção de Débora Lamm, é, certamente, de uma covalência rara. Quase um caso de alter ego, numa complementaridade de sensações e de desabafos que contagiam a plateia e marejam olhos.   

Essa dramaturgia hoje nos palcos, pavimentada sob uma aeróbica inventiva de Benedita (num trabalho de expressão corporal inusitado… mas sempre mavioso), virou um (belo) filme em 2025, sob a direção de Fellipe Barbosa, com o título “90 Decibéis”. A estrela é a mesma, com um satélite de excelência extra, que é a fotografia da sempre certeira Louise Botkay. 

No teatro, o trabalho é de Benedita, calçada nos verbos de ação, em ligação existencialista, de Spadaccini. Centrífuga de referências Pop de outrora, a escritora de “Os Estonianos” devora as dores retratadas em “Filhos do Silêncio” (“Children of a Lesser God”, 1986), de Randa Haines, a fim de relembrar a luta da atriz Marlee Matlin, oscarizada sob a identidade de mulher surda em uma Hollywood capacitista.

Aliás, esse universo também pode ser visto em “A Família Bélier” (2014), de Éric Lartigau, mais tarde refilmado nos EUA como “CODA”, em 2021, por Sian Heder, ambos gravitaram por esse universo de um corpo às voltas com o que parece lhe haver “de menos”, numa subtração imposta por desígnios sociais excludentes. Há ainda narrativas mais selvagens, como “Sound of Metal” (2019), de Darius Marder, e o recente “Sorda” (2025), de Eva Libertad. 

A dupla Spadaccini x Benedita não fazem choro, não entram no lamento, celebram a vida que têm com as belezas que elas encontram. A passagem onde se fala com nostalgia da delícia por trás do binômio walkman + ônibus acelerado é uma memória afetiva que ganha vida na forma prospectiva com que os diálogos são delicadamente ditos. Caminha-se sem rancor por uma saga de autoafirmação que não bola para aquilo que se vende como “perfeito”. 

A perfeição se vende como utopia, mas se comporta como eugenia, como distinção excludente, como indelicadeza. O imperfeito de Spadaccini, por outro lado, é imperdível, tal qual o show de Benedita em cena.

SERVIÇO Local: Teatro Firjan SESI CENTRO . – Avenida Graça Aranha,, 1 / DURAÇÃO: 60 minutos / Ingressos pela Sympla

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