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‘Berta – Minha Vida Por Um Palco’: A épica de uma estrela, do intimismo ao riso

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No fechar das cortinas da sessão de estreia de “Berta – Minha Vida Por Um Palco” esculhambando com o mau humor do mundo, fazendo gato e sapato do coração da gente, um espectador enlevado pela mistura de gozo e de saudade na essência daquela dramaturgia, mirou para o balcão superior do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), onde fica a técnica, a fim de agradecer pela engenharia de luz. Caçava, afoito, a figura de Aurélio de Simoni, bamba da iluminação, a dizer: “A luz é tua? Cara, parece uma pintura. A gente viaja pra dentro de um quadro”. Era um desabafo de extasia, uma catarse… mas, o sujeito tem razão. É uma moldura.  

Saiba mais sobre a peça!

Nela, vetorizado pela direção de movimento de Lavínia Bizzotto e Alê Maïa e pela trilha sonora de Ary Coslov (que comanda a encenação) e Marcelo Aquino (coautor do texto), um quarteto de arlequins em estado de graça “veste” diferentes figuras essenciais à biografia da atriz Berta Loran (1926-2025). Andrea Dantas e Patrícia Pinho dividem-na, por diferentes fases da História, a começar pela diáspora, de Varsóvia ao Rio, nos anos 1930. Com seu vozeirão tonitruante e sua ginga Alexandre Regis infla o palco na composição de diferentes figuras masculinas que cruzaram a vida da estrela, umas espertalhonas, outras parceiras. Junior Vieira, num notável trabalho de expressão corporal, emprega sua sagacidade cênica para desenhar homens que fizeram Berta ir adiante em sua jornada… ainda que cometendo escorregões aqui e acolá. As sequência em que ele encarna o pai da protagonista, sonolento na cama, escorrem mel.   

Coslov consegue um feito notável nessa montagem: construir um épico sobre imigração que vai por um terreno do intimismo, da implosão, e, ainda assim, é capaz de ser engraçado. Um pouco como (o hoje esquecido) filme “Avalon” (1990), de Barry Levinson. O detalhe é que a fina narrativa dramatúrgica escrita por Miriam Halfim e Marcelo Aquino celebra a memória, numa luta pelo não esquecimento. 

Na escrita, Miriam e Aquino partem do corpo morto de Basza Ajs, nome real de Berta, e, com a ajuda do Além, convida-a a relembrar seus feitos, numa dinâmica ágil de biopic (jargão para definir uma épica biográfica). Basza nasceu na Polônia em 23 de março de 1926, chegou ao Brasil ainda menina e subiu ao palco pela primeira vez aos 14 anos. A estreia para grandes plateias viria no Teatro Carlos Gomes, em 1952; no cinema, apareceu em “Sinfonia Carioca” (1955), de Watson Macedo, e depois em chanchadas dirigidas por Carlos Manga. 

Na TV, que encarava como um oásis (e como meta profissional), a diva passou por “Balança Mas Não Cai”, “Planeta dos Homens”, “Viva o Gordo”, “Escolinha do Professor Raimundo” e “Zorra Total”, além de novelas como “Amor com Amor Se Paga”, “Cama de Gato”, “Cordel Encantado” e, já aos 93 anos, a novelaça “A Dona do Pedaço”. Ao reviver esse périplo midiático, de quase oito décadas de carreira e mais de 2 mil personagens, Coslove nos entrega a aventura de um corpo em trânsito, mar adentro, Rio adentro. A peça é, certamente, a aventura da imigrante que, na dor da desterritorialização, passou a vida em busca de pertenças. O teatro foi a mais calorosa delas.

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