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‘Boa Noite, Mãe’: duas atrizes embalam a angústia do desalento com atuações estonteantes

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Bagunçando corações no palco do Poeira, “Boa Noite, Mãe” já foi filme. Chama-se “Noite de Desamor” a adaptação da peça de Marsha Norman para o audiovisual. Passava bastante aqui no “Supercine”, da Globo. Tinha Sissy Spacek e tinha Anne Bancroft (1931-2005). Tom Moore, então um estreante, dirigiu a transição dessa investigação teatral sobre decisões extremas para o cinema e, embalado em seu sucesso, foi dirigir séries, de “Cheers” a “Mad About You”. 

Saiba mais sobre a peça!

Seu filmaço concorreu ao Urso de Ouro da Berlinale, em 1987, mesmo ano de “Platoon”, que esteve em disputa com ele. Essa era uma época de apogeu de um tipo de cinema americano que se desgarrava do combate ideológico inerente à Nova Hollywood, a vaga de invenção e contestação política vigente de 1967 a 1981, que revelou Spielberg, De Palma, Coppola, Scorsese, Elaine May, Melvin Van Peebles, George Lucas. 

Nesse corte histórico de laços, sua forma de conversar com a telona agarrou-se a uma ressaca ideológica inerente às vitórias capitalistas do início da década de 1980. Caíram os hippies, venceram os yuppies. Foi aí que Tom Moore encontrou um módulo inquieto (e vivo) de jogar holofotes sobre a dramaturgia de Marsha Norman. 

Seu ‘night, Mother é o apogeu de uma forma de escrita típica daqueles tempos, na qual o fraseado se abria a palavras corriqueiras, a interjeições, a respiros. A palavra conta menos do que a perplexidade que o silêncio gera, que uma pausa bem posta provoca.

David Mamet, outro dínamo da época, com sua “Speed-the-Plow” (1988), forjou-se desse mesmo aço. O aço em Marsha é poroso. Nos poros de “‘night, Mother”, percebe-se um ensaio de acolhimento. O trabalho dela, como autora, é verter abraços em abrigos, peça a peça, mesmo no contingente mais ferino.

Não é por acaso que um bamba do insulamento lírico, como Leonardo Netto, tenha se interessado em encenar essa trágica história de abraços partidos, traduzida aqui como “Boa Noite, Mãe”, tendo as leoas Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta a rugir. Há uma genealogia de desalento por trás das duas personagens, mas Norman nunca transforma desamparo em tese. Dor é dor. Dor dói. 

Escrito em 1982, ‘night, Mother teve sua estreia mundial em 10 de dezembro daquele ano, no American Repertory Theater, no Loeb Drama Center, em Cambridge, Massachusetts. Tom Moore dirigiu Kathy Bates, no papel de Jessie, e Anne Pitoniak, como Thelma. Em 31 de março de 1983, a mesma dupla chegou ao John Golden Theatre, na Broadway. Daí… só abraço, só aplauso, só fama. 

Naquele mesmo ano, Marsha Norman ganhou o Pulitzer de Drama pelo texto. A consagração veio de uma peça cuja arquitetura é de uma simplicidade aparentemente enganadora: numa noite aparentemente banal, Jessie anuncia à mãe que pretende se matar antes que o dia amanheça. A partir daí, mãe e filha negociam minutos a mais quando o tempo está acabando, com a areia da ampulheta da paciência a se esvair.

Nascida em Louisville, Kentucky, em 1947, Norman chegou à dramaturgia depois de trabalhar com crianças e adolescentes com distúrbios emocionais. Antes de ‘night, Mother, já havia chamado atenção com “Getting Out”, sobre uma mulher que tenta reconstruir a própria existência depois da prisão. Confinamento, autonomia e personagens femininas em busca de alguma saída atravessam sua obra.

Efeito especial vivo, Ana Beatriz Nogueira tem uma esgrima própria em sua lida com Marsha. Promove aquilo que Guimarães Rosa chamava de “espatifar o osso da palavra”, mastigando sujeitos e predicados para sacar deles o adjunto poético do inesperado. Há na atuação dela, uma capacidade incomum de fazer uma frase chegar ao espectador por caminhos que a sintaxe não previa.

Não por acaso, em 1987, quando Tom Moore levava Marsha à Berlinale, Ana Beatriz concorria a láureas com “Vera”, de Sérgio Toledo, drama de afirmação de identidade, num registro queer, que lhe deu projeção internacional. Saiu de Berlim com o Urso de Prata de Melhor Atriz.

O falar de Ana Beatriz modula tristezas na desinência verbal do afago. Quase nada do que Thelma cospe em “Boa Noite, Mãe” escorre para o fel da peçonha, da vileza, do comezinho ou da mesquinharia. A mãe que ela encarna tem leite, e seu leite tem gosto de mel. Acolhe a filha em crise, acolchoando seu mal-estar — e, por extensão, o nosso.

Andréia Horta trabalha noutra frequência, embora chegue a uma organicidade igualmente radical. Desde que se tornou força motriz protagonista no audiovisual, em 2008, com “Alice”, de Karim Aïnouz e Sergio Machado, na HBO, ela chove na lavoura da coloquialidade ao enfrentar textos dos mais ferozes. Faz temporal parecer garoa, sem que a espessura da gota fria se esvaia. 

Na boca de Horta, o mais confessional “você foi muito importante pra mim” pode soar sem artifício, livre de teatralidade, de literatices, de frases “roteiradas”. Ela tritura o que existe de apolíneo na construção textual e transforma tudo num chiclete de bola dionisíaco, mascado enquanto resta açúcar, até a frase fazer “ploc” e explodir, sincericida, no tímpano da gente.

É como se fosse a vida. Nessa mimese entre vivido e inventado está a força de sua Jessie. Horta não interpreta a decisão da personagem como um enigma a ser decifrado, nem procura adorná-la com uma solenidade trágica. O horror nasce justamente da clareza com que aquela mulher organiza a própria despedida.

Não há histeria a servir de atalho para a dor. A força está na naturalidade quase administrativa com que Jessie arruma coisas, estabelece providências e conduz a conversa. O cotidiano passa a funcionar como relógio da tragédia, num compasso suíço. Quanto mais banal parece a ação, mais perto o espectador sente aquilo que sabe estar por vir.

Leonardo Netto compreende que qualquer excesso de direção poderia roubar oxigênio desse duelo. Sua encenação preserva a temperatura cotidiana da conversa e permite que a tragédia vá entrando na sala sem bater à porta. Não há uma chave súbita que transforme o banal em extraordinário: o extraordinário estava escondido dentro do banal desde o início.

Quando presenteou o teatro brasileiro com “3 Maneiras de Tocar no Assunto” (2019), um dos textos mais viscerais do século XXI, Leonardo Netto já entrou em sintonia com o sentimento de desterro e desconexão tratado por Marsha, e o fez nas raias da polarização política do Brasil. Foi uma peça que captou com precisão o zeitgeist do ódio.

Esse espírito zombeteiro segue aí, ao nosso redor. A forma encontrada por Netto para reagir agora foi voltar a falar de almas desconectadas do mundo, mas com carinho, com melado. Se “3 Maneiras de Tocar no Assunto” encarava a violência que contamina a esfera pública, “Boa Noite, Mãe” recolhe a discussão para a esfera mais íntima possível: uma casa.

Essa opção encontra sua expressão visual mais precisa na cenografia de Ronald Teixeira — um titã — e Flavio Graff. O cenário não se limita a reproduzir uma casa: constrói uma caixa de intimidade, espaço simultaneamente doméstico e mental no qual objetos, distâncias e zonas de circulação passam a medir o que separa — e ainda aproxima — mãe e filha. É trincheira.

Nela, balas FreeGells competem pela nossa atenção com balas de um trezoitão que está sendo limpo. Ao fundo, repousa um urso. Uma pelúcia que indica um pretérito perfeito, mas findo. E tudo que é findo tende ao lindo.    

Há rigor especialmente na maneira como esse espaço evita disputar protagonismo com as atrizes. A cenografia oferece concretude ao cotidiano para que Leonardo Netto possa implodi-lo. Cada elemento parece existir porque pertence à vida daquelas mulheres, não porque precisa “significar” ostensivamente alguma coisa para a plateia. É justamente essa discrição que lhe dá precisão.

Ronald e Graff entendem ainda uma questão essencial do texto: tudo precisa estar ao alcance de Jessie. A casa é também um inventário. Cada objeto manuseado ganha a dimensão de vestígio de uma existência que está sendo organizada pela última vez. A cenografia transforma o ato doméstico de pôr coisas em ordem numa espécie de arqueologia antecipada da ausência… e do luto anunciado.

Casa e prisão tornam-se, assim, possibilidades simultâneas. Quanto mais reconhecível é aquele ambiente, mais perturbadora fica a certeza de que Jessie já está se despedindo dele. A morada que deveria protegê-la converte-se aos poucos no mapa físico de tudo aquilo de que ela decidiu se desligar.

É nesse território que o espetáculo encontra sua ideia mais forte. O que está em jogo não é apenas a possibilidade de uma mãe impedir a morte da filha. É o confronto entre duas concepções de amor: uma que deseja proteger a outra a qualquer custo e outra que reivindica, de maneira extrema, o direito de decidir sobre a própria existência.

Marsha Norman não oferece ao espectador a comodidade de resolver essa colisão. A autonomia de Jessie é aterradora justamente porque se apresenta como autonomia; o amor de Thelma é devastador porque descobre seus limites quando mais deseja proteger. Entre uma e outra, “Boa Noite, Mãe” instala uma pergunta que nenhuma delas consegue responder sem ferir a outra, ou seja, quando foi que a esperança parou de fazer sentido e de ser necessária.

Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta fazem desse impasse uma experiência de escuta, mútua. Uma fala e a outra mede o silêncio deixado pela fala. Uma procura agarrar, a outra procura desprender-se. É nesse cabo de guerra sem nós que Leonardo Netto encontra o lugar mais doloroso — e mais generoso — de sua montagem: existe troca no desespero. Não é abraço de afogado. É a batalha de mulheres para cruzar o limite do tolerável. 

No fim das contas, aquele aço poroso de Marsha Norman continua ali. Quarenta e quatro anos depois de ‘night, Mother nascer num palco de Cambridge, a pergunta já não é apenas se um abraço pode impedir alguém de partir. É, sim, o quanto de nós fica dentro de um abraço quando, apesar de todo o esforço, ele já não consegue servir de abrigo.

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