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“Doce Árido” faz nova temporada no Teatro Ipanema

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Depois da primeira temporada no Rio de Janeiro, “Doce Árido” reestreia no Teatro Ipanema Rubens Corrêa. O espetáculo tem texto e direção de Tairone Vale e reúne as atrizes mineiras Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini como três gerações de mulheres de uma mesma família que sustentam a casa com a produção artesanal de doce de leite em uma pequena roça no interior de Minas Gerais.

O que você seria capaz de fazer diante da chance de transformar a própria vida? É a partir dessa pergunta que se desenvolve “Doce Árido”. Quando um inesperado pedido vindo do exterior surge como a possibilidade de mudar suas vidas, a família mergulha em uma intensa rotina de trabalho para entregar a encomenda dentro do prazo. Mas o maior obstáculo para essas mulheres não é o tempo, e sim os segredos do passado.

Entre as consequências de um parto complicado e a escassez que ronda a casa, mãe, filha e avó se equilibram entre o peso da tradição e o desejo de liberdade. Pressionada pelo prazo curto, Maria Antônia (Pri Helena) exige dedicação total à produção da encomenda. A jovem Maria Lúcia (Rebeca Figueiredo) se divide entre o tacho de doce e os cuidados com sua frágil recém-nascida, Maria Clara. Observando tudo pelas frestas, a matriarca Maria Quitéria (Layla Paganini) sabe que a fragilidade dessas relações pode colocar tudo a perder.

Por trás do drama familiar, a peça revela diferentes formas de violência que atravessam a vida dessas mulheres e se perpetuam entre gerações. A violência física aparece de maneira velada, enquanto outras formas de opressão estão incorporadas à própria estrutura familiar e às condições sociais em que vivem. O isolamento do meio rural, a falta de recursos, a sobrecarga de trabalho e a naturalização de responsabilidades atribuídas às mulheres compõem esse universo. “Mesmo uma família que consiste apenas por mulheres, o patriarcado está lá presente. Ele está lá presente sendo violento e oprimindo, mesmo numa casa que só tem mulheres”, afirma Tairone.

As diferenças entre as três gerações ajudam a revelar como essas estruturas se transformam, mas permanecem presentes. Maria Quitéria pertence a uma geração que cresceu sem vislumbrar um horizonte fora daquele ambiente. Maria Antônia já reconhece a possibilidade de outra vida, mas permanece presa às condições sociais que a cercam. Maria Lúcia, por sua vez, representa uma geração que consegue olhar para fora e reconhecer o desejo de romper com aquele ciclo. “Ela já se reconhece ali. Enxerga esse horizonte e está disposta a buscá-lo”, explica o dramaturgo.

Criada em 2013, a peça parte de memórias da infância de Tairone e dos afetos construídos pelas matriarcas de sua família. O autor lembra especialmente mulheres que assumiram praticamente sozinhas a criação dos filhos, o sustento e a organização da casa. Para ele, essa responsabilidade frequentemente tratada como uma demonstração de “força feminina” esconde uma estrutura de sobrecarga e renúncia. “É um senso de responsabilidade de que, se ela não fizer, ninguém faz”, afirma. “São funções que deveriam ser divididas, mas acabam assumidas e colocadas como se fossem uma responsabilidade exclusiva da mulher.”

A saúde mental e a maternidade também estão na origem da dramaturgia. Tairone conta que cresceu cercado por histórias familiares em que depressão e ansiedade eram pouco compreendidas e frequentemente estigmatizadas. A partir daí, imaginou como uma situação aguda poderia afetar uma família que vive isolada, sem recursos e cuja sobrevivência depende da continuidade do trabalho. “Um dos motivadores para esse trabalho foi pensar no que aconteceria se uma mulher tivesse depressão pós-parto em um cenário isolado, rural, sem estrutura e recursos”, diz.

Mais de uma década depois da criação do texto, as questões abordadas pela peça permanecem atuais. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 49,1% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, que dedicam quase dez horas semanais a mais que os homens ao trabalho doméstico e de cuidado. Cerca de três em cada dez brasileiras já sofreram violência doméstica, com altos índices de estupro e feminicídio, realidade ainda mais grave entre mulheres rurais, que enfrentam menor acesso a serviços de saúde e proteção, mobilidade restrita e isolamento.

A opressão vivida pelas personagens também ganha forma no espaço cênico. Apoiado numa plataforma móvel, o cenário espelha a instabilidade das relações familiares e, à medida que a trama avança, tomba com o deslocamento das atrizes. Fios vermelhos, fardos e portas transformam continuamente o ambiente. Concebido pela diretora de arte e cenógrafa Cris Bourgeaiseau como um “agente de opressão”, o espaço perde progressivamente a estabilidade e o conforto, materializando aspectos da condição das personagens.

A trilha sonora original, da cantora e compositora Laura Jannuzzi, reforça essa atmosfera. A viola caipira, que poderia remeter apenas ao regionalismo mineiro, ganha contornos opressores ao acentuar a aridez do ambiente, enquanto a flauta destaca a solidão que mães e filhas, mesmo juntas, não conseguem evitar.

SERVIÇO
Temporada: 3 a 26 de setembro
Local: Teatro Ipanema Rubens Corrêa (Rua Prudente de Morais, 824, Ipanema)
Dias e horários: quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h
Ingresso Sympla
Classificação indicativa: 14 anos
Gênero: Drama
Instagram: @docearido

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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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