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Luciana Rique apresenta “Entre Órbitas” na Casa Proeza

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Luciana Rique fotografa o mundo para fazê-lo desaparecer. Diante de sua câmera, aquilo que está à vista perde contorno, escala e gravidade. Luzes se tornam corpos, superfícies sugerem paisagens, formas parecem flutuar em um espaço cuja localização não podemos precisar. “Nada é o que parece quando a Luciana fotografa”, diz o curador Eder Chiodetto. Se a fotografia nasceu historicamente associada à capacidade de registrar o visível, a artista carioca parece interessada no movimento inverso: “Em geral, os fotógrafos atuam para revelar algo do mundo. A Luciana fotografa para ocultar a aparência do mundo”, observa. 

É desse território incerto, entre o que existe e o que apenas parece existir, que nasce “Entre Órbitas” na Casa Proeza, no Centro do Rio, durante a ArtRio. Com curadoria de Eder Chiodetto, que acompanha a pesquisa da artista desde 2022, a mostra reunirá cerca de 35 obras e marca um novo momento de uma investigação que tem a fotografia como ponto de partida, mas progressivamente ultrapassa seus limites. 

Se nas exposições anteriores, Entreato (2023) e Sólido Volátil (Rio de Janeiro, 2024; São Paulo, 2025), Luciana já tensionava a imagem fotográfica ao colocá-la em relação com diferentes suportes e materiais, agora esse movimento se radicaliza. Fotografias passam a conviver com chapas de ferro, folhas de ouro, carvão e papéis artesanais coreanos. Em determinados conjuntos, torna-se difícil distinguir onde termina a fotografia e começam o desenho, a superfície ou a matéria em estado bruto. 

As imagens partem de situações encontradas no mundo, mas raramente permitem reconhecer aquilo que esteve diante da câmera. Luciana procura cantos, frestas, incidências de luz e sombra, e trabalha com o desfoque e o movimento do próprio aparelho. “Uso a câmera como um pincel”, afirma. “Não quero fotografar a coisa dada, quero que tenha algum mistério.” Eder define o resultado como uma “iconografia de atmosferas”, situada numa zona intermediária entre figuração e abstração. 

Em “Entre Órbitas”, a alquimia passa a constituir uma nova chave conceitual para a pesquisa. O caminho surgiu quando Chiodetto se deparou com uma fotografia em tons avermelhados que lhe pareceu mostrar um mar revolto, embora não fosse um mar. A imagem, que abrirá a exposição, trazia uma intensidade cromática até então pouco presente em uma produção marcada principalmente por pretos, brancos e ocres. A partir dela, artista e curador chegaram ao rubedo, etapa da alquimia associada à culminância do processo de transmutação. 

“Os movimentos estelares, a alquimia, a transformação da matéria e o comportamento da luz sobre esses fenômenos foram alguns dos mistérios que nortearam os diálogos de Luciana comigo e determinaram novos impulsos criativos”, afirma Eder. A pesquisa repercute também na construção visual das obras: as arestas, linhas retas, triângulos e quadrados mais presentes em Sólido Volátil cedem espaço a formas circulares e elípticas, enquanto vermelhos e dourados passam a integrar a paleta da artista.

A alquimia se infiltra na própria matéria das obras. Ao experimentar impressões sobre ferro e aço corten, Luciana se interessou pelo comportamento do metal, sobretudo por sua oxidação ao longo do tempo. O ferro passou a existir ao lado da fotografia, sem servi-la como suporte. “Uma chapa de ferro não foi uma chapa de ferro e não será daqui a um tempo”, pontua o curador, que vê no material uma metáfora da transitoriedade. Ferro, carvão e uma espécie de “poeira cósmica”, como Luciana chama algumas das matérias que experimenta, integram um percurso que culmina na folha de ouro, associada à etapa final do processo alquímico. 

A nova produção incorpora ainda papéis artesanais coreanos, descobertos pela artista durante uma experiência de caráter investigativo em Seul, em 2025, quando visitou ateliês, espaços de produção e museus. Suas formas e texturas estabelecem um diálogo visual com as fotografias e passam a integrar as composições da mostra.

A ideia de suspensão ganha também uma dimensão espacial. Na Casa Proeza, parte das obras descerá do teto em suportes que não chegam ao chão. Distribuídas em diferentes planos, as peças criarão aproximações e distâncias como corpos em um mesmo campo gravitacional. Nas paredes, fotografias e matérias formarão constelações, propondo um percurso no qual o visitante deixa de observar as obras para orbitar entre elas. 

A concepção encontra ressonância no próprio edifício histórico e em sua localização no Centro do Rio. Para Chiodetto, há algo de simbólico em construir uma exposição em torno de órbitas justamente em uma região que volta a concentrar iniciativas culturais da cidade. “É como reposicionar as constelações da cidade, colocando de novo o centro no centro, como o epicentro”, afirma. 

SERVIÇO:
A partir de 18 de setembro
Local: Casa Proeza
Endereço: Rua do Ouvidor, 26 – Centro

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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