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Precisamos Falar: Livro de Herman Koch ganha versão brasileira

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‘O Jantar’ é um livro do alemão Herman Koch publicado em 2009, e que já rendeu uma quantidade expressiva de adaptações cinematográficas. Ao menos três delas tinham chegado ao Brasil: O Jantar, versão americana de Oren Moverman (2017); Nossos Meninos, italiana de Ivano De Matteo (2014); e Uma Família Normal, coreana de Hur Jin-Ho (2024). Precisamos Falar, de Pedro Waddington e Rebeca Diniz, é a nossa versão para esse mesmo texto original, que agora tenta trazer para a nossa realidade os dilemas morais de uma família dividida em duas – estamos diante das casas de dois irmãos, e seus núcleos particulares. Em uma noite, os filhos de cada um se envolvem em uma situação que termina na morte de uma pessoa em situação de rua, e esse evento escalona de tal forma, que os problemas do passado vêm à tona. 

A boa notícia é que a transposição de eventos intercalados aos da nossa realidade atual é muito bem sucedida, tanto nos aspectos comportamentais quanto políticos. O roteiro de Sergio Goldenberg, que teve colaboração de George Moura (ambos autores de obras especiais de nossa teledramaturgia recente, como Onde Nascem os FortesAmores Roubados Guerreiros do Sol, atualiza as ligações entre os tipos, cria novos arcos e pelo menos um novo personagem, e carrega o barril de pólvora que se transformou o Brasil recente para mesa da classe média abastada. Os diálogos são reconstruídos para abarcar os nossos propósitos, e Precisamos Falar acaba por se parecer com muitas discussões familiares que vemos tendo entre os nossos há 10 anos. 

Isso também acontece porque a direção de atores consegue criar uma dinâmica muito azeitada entre os membros do elenco, e estamos falando de um quarteto de grandes e consagrados atores e quatro jovens (quase) iniciantes. De um lado, temos Alexandre Nero (de A Jaula), Marjorie Estiano (de As Boas Maneiras), Emílio de Melo (de In on It) e Hermila Guedes (de O Céu de Suely) em performances consistentes. Ainda que o primeiro interesse menos pelas suas explosões regulares e Guedes tenha menos espaço que mereça, Melo é um contraponto ideal a Nero e Estiano continua sua saga para mostrar-se a melhor atriz de sua geração; sua performance ultrapassa predicados. Já o quarteto jovem é um achado: Cauê Campos, Thiago Voltolini, Guilherme Cabral e Julia Svaccina são absolutamente tridimensionais e cheios de camadas, com características que as performances de cada um deles agrega ao todo. Juntos, o octeto é uma prova de que esse tipo de conexão é rara, mas quando acontece, surte resultados excepcionais. 

Os problemas que circulam por Precisamos Falar então advém de outras ordens, que não às criadas para sua realidade tropical. Já que o caldeirão político e as discussões sociais foram realimentadas com ganhos, o que fica de artificial são os códigos que regem a estrutura fechada já presente nos filmes anteriores, mas que os italianos e os coreanos melhor conseguiram se movimentar. Uma produção de câmara, com os seus personagens indo além das quatro paredes de suas ilhas particulares; tirando uma ou outra chegada dos personagens jovens à escola, e o ponto de partida, todo o resto é submetido para as quatro paredes. Isso não é um problema per se, mas engessa o material quase a uma saída teatral, que também é o problema da adaptação de Deus da Carnificina, onde a ideia de não sair do que as paredes controlam sufoca as potencialidades do que os orbita. 

A partir dessa realidade que o filme monta, o espectador não fica refém da tensão que poderia ser criada, mas de uma observação social. O filme elimina possíveis conflitos antecipados, e se atém a um único encontro dos personagens, o que também os margeia longe dos olhares contrários. A ambiguidade que cada um deles carrega não fica tão bem delineada, e assim Precisamos Falar não fornece tantos caminhos quanto é possível pelo que é suscitado em suas questões. O longa de Waddington e Diniz também acaba sufocada por essas paredes múltiplas e o filme não ganha uma respiração imagética mais aprofundada. Ao longo do que assistimos, o filme precisaria escalar tensão em seu campo de plano, mas não sai muito do lugar que é anunciado desde o início; na verdade, a cena inicial não é mais reproduzida, em sua escala nervosa. No lugar disso, temos o apaziguamento dos códigos que poderiam carregar a imagem de autonomia. 

Como o Cinema é a “Arte da Imagem”, é um pouco decepcionante que Precisamos Falar abdique de uma construção um pouco mais elaborada para se concentrar em um projeto de cinematografia que não contemple a realização por completo. Ainda assim, estamos diante de uma obra que entende que seus valores de mercado estão atrelados ao que está sendo contado, e pela qualidade de quem está na frente das lentes. Ou seja, temos uma produção que se concentra em seu elenco excelente e no que eles desenvolvem com o roteiro à disposição. Definitivamente é um valor que interessa a parte substancial do espectador. 

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