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Viva Marília: Zelito Viana celebra trajetória de Marília Pêra

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Um dos subgêneros que mais tem dado as caras no cinema brasileiro atualmente, o documentário sobre astros e estrelas (grande parte de origem ou fundo musical) da nossa História, parece estar em um dos seus momentos mais elegantes e bem sucedidos. Luiz Melodia: No Coração do Brasil, de Alessandra Dorgam, e Gonzaguinha, Da Maior Liberdade, de Susanna Lira, são exemplos recentíssimos dos acertos que foi olhar para artistas de imensa grandeza e deixá-los falar por si só; como pode ser maior que isso? Viva Marília, de Zelito Viana, tem o acerto de fazer o mesmo por essa que é reconhecidamente uma das maiores atrizes brasileiras de todos os tempos. E não apenas, uma cidadã de voz ativa, uma pensadora das mais interessantes, cheia de proposições impressionantes sobre a arte, as relações humanas e si mesma; Marília Pêra além do que conhecemos. 

O diferencial nesse projeto se dá exatamente pela inserção de Viana na direção – e, provavelmente, na co-direção de Esperança Motta, ninguém mais que a filha da biografada. Aos 88 anos, Viana é de uma vertente mais tradicionalista de direção, e não assinava uma produção há 10 anos. Em sua filmografia, por exemplo, inclui-se biografias bem quadradas enquanto realizador (Villa-Lobos: Uma Vida de Paixão JK: Bela Noite para Voar), mas não podemos esquecer que é também ele um dos maiores produtores do Cinema Brasileiro. Se não, vejamos: A Grande CidadeTerra em TranseO Dragão da Maldade contra o Santo GuerreiroCabeças CortadasCabra Marcado Para Morrer; vamos ficar só nesses. Essa é a prova de um caráter de invenção de sua própria essência enquanto profissional de arte, e é isso que nos leva de volta a Viva Marília

Com o auxílio da família (além de Esperança, o ex-marido de Marília, Nelson Motta, assina o roteiro), Viana constrói o que deve ser formatado em torno de uma atriz que nos deixou há tão pouco tempo (apenas 10 anos), que temos a impressão de que seu tempo ainda é hoje, e talvez o seja mesmo. Nada do que a ouvimos dizer em cena envelheceu, e muitas das coisas foram ditas há mais de 40 anos. Uma figura que, por seus próprios atos, motivou a independência entre as mulheres, e uma inquietação verdadeira, para que o futuro fosse feito pelas rédeas que cada uma conseguir manter. Viva Marília, conforme já descrito, testemunha os trabalhos da protagonista de tantos sucessos nos palcos e no cinema (para a TV é dedicado espaço consideravelmente menor), mas principalmente sua voz e suas escolhas de performance da vida. 

Existe obviamente uma passagem bem honesta em Viva Marília onde não somente a atriz se imbui de coragem para declarar, como dos realizadores para incluir, no que diz respeito ao seu olhar acerca da ditadura, ao menos inicialmente. Tendo participado da histórica montagem de ‘Roda Viva’, de Chico Buarque, exatamente aquela invadida pelos militares, que prenderam todos os que estavam no palco em 9 de novembro de 1968, quando o elenco e seus profissionais foram espancados e presos, incluindo Marília. A “polêmica” vem da fala da atriz de que não estava a par da situação do país anteriormente a isso, porque não tinha uma família abastada, e precisava pensar em formas de colocar dinheiro em cima da mesa. Existe sim uma coragem do filme em não ofuscar esse lugar de Marília, tratando de complexificá-la sem que para isso sua imagem seja associada a alguma forma de negacionismo – o que ela obviamente não era. 

Sabemos que um grande resultado para o documentário precisa não apenas das diretrizes de abordagem formal, exatamente essa ideia de deixar a protagonista contar a história através de suas próprias palavras, sem a intervenção de quem a conheceu para descrevê-la, mas igualmente de um profissional de montagem que compreenda o poder de síntese do que é visto. Jordana Berg era colaboradora contumaz de Eduardo Coutinho, e trabalhava com ele desde Santo Forte, tendo passado por todos os seus clássicos desde então, além de ter acabado de ganhar um Grande Otelo pela montagem de Apocalipse nos Trópicos, e o que ela faz em Viva Marília reforça suas habilidades. Temos aqui uma veterana que não se deixa corromper por qualquer modismo, premiada diversas vezes, mas que ainda sabe trilhar passos de contemporaneidade. A pesquisa do filme é certeira no material que encontra, e Berg consegue costurar tematicamente tudo o que a protagonista fala, da maternidade à profissão, onde sua visão de mundo vai sendo desenhada. 

É um trabalho que, até por todos esses predicados apresentados, trata-se de uma prova de amor dos envolvidos à memória dessa mulher ímpar, como igualmente esquadrinha sua vida pessoal (e até mesmo privada) diante de um público que não tinha acesso a nada disso. Marília Pêra foi, acima da grande artista, uma mulher de discrição absoluta, profundamente focada em seu trabalho quase obsessivamente, e que fez questão de reservar sua intimidade para os seus. Viva Marília não a trai, mas observa com delicadeza seu íntimo além da atriz, além da cantora, além da profunda admiradora da arte que a fez se debruçar sobre o próprio labor e o ofício de outras colegas. Não é uma tarefa fácil celebrar e revelar sem conspurcar sua homenageada, e a equipe de Viana sai ilesa do trabalho de realçar o tempo e as armas de alguém enorme como Marília. 

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