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100 Dias: A história da travessia de Amyr Klink chega aos cinemas

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Uma biografia disfarçada de filme de aventura? Um registro de época que conversa com temas contemporâneos? Um estudo de personagem a partir de uma história real? 100 Dias é o novo filme de Carlos Saldanha  (Rio), enveredando pelos filmes em ‘live action’, com uma história fascinante para contar. Mas como fugir do exato esforço de colocar no ar algo pouco engessado sem se mostrar melodramático é um dos acertos da produção, que parece querer contar menos do que sabe, porque entende que tudo que poderia ser dito ou escrito pelo personagem, é de fácil acesso. Por isso a saída para o filme ser uma imersão no labor de cada um, e o que o detalhamento desse momento carrega para o espectador, é uma prova de coragem de uma produção enorme. 

Quando falo de enorme, estou falando de valores de produção estéticos e reais – o custo aqui foi de 30 milhões. Se isso tudo está disposto na tela da melhor maneira, isso nem pode ser chamado de subjetivo, levando em consideração que muitas coisas estão adaptadas logisticamente na história da travessia de Amyr Klink, o aventureiro que saiu do continente africano há mais de 40 anos atrás para aportar no Brasil pelo tempo estimado do título. Esse era um dos muito desafios, cumprir à exatidão com o intento, que é feito (e isso não é spoiler, e sim histórico), mas as maneiras com que Saldanha dispõe tudo que vemos é comportada para caber em uma produção protocolar, em muitos aspectos. 

Não há necessariamente uma assinatura por trás do diretor das animações que ele tão facilmente transformou em sucessos. Porque esse é um projeto de produção tão mastodôntica, que provavelmente as diretrizes prévias de cada cena estavam já na descrição das mesmas. E se não foi esse o caso, exatamente não fica claro sua autoralidade. O que fica impresso em 100 Dias é essa busca por identificação do espectador por um personagem que, acima de tudo, lidava com os hormônios ainda jovens, e rebeldes, e contestadores, principalmente em relação ao pai (vivido com brilho por Felipe Camargo). Outro Felipe, o Bragança, encara o protagonista com sobriedade e algum entusiasmo, mas não me parece que seus esforços sejam o propósito original do projeto. 

Ao longo das duas horas de projeção, o que tem de mais interessante no filme é a sua tentativa de filmar o ambiente de trabalho de Klink. Ou seja, não estamos diante de uma obra de caráter procedural exatamente, mas o ambiente em que o protagonista está inserido, que é a da realização de suas tarefas diárias, ou como os flashbacks revelam, mesmo a preparação prévia da jornada, são o que mais nos interessa em 100 Dias. Essa é uma obra que também se pretende observar o que aconteceu ao longo desse período de mais de 3 meses, e para isso, filmar sua rotina diária, exaustiva e muitas vezes em processo de descoberta, é o que existe de mais orgânico no que é montado pela obra. 

Quando precisa mostrar suas relações prévias, tanto com o pai quanto com a mãe, o irmão e as relações de trabalho que estabelece, tudo parece sufocado pelas tais obrigações de tempo e processo ligado à estrutura da biografia. Ou seja, o que é natural na labuta dos dias do personagem, perde parte do seu interesse quando somos apresentados a essa estrutura tradicional de contar uma historinha para o espectador tentar se identificar com o que assiste. Levando em consideração que esses momentos se assemelham a esquetes inseridos na obra, umas saídas soam mais naturais que outras, e com isso a própria dinâmica do filme também não soa sempre acertada para alcançar seus objetivos, seja o envolvimento ou a ambição. 

Particularmente, uma cena poderia ser extraída para que seu resultado não tivesse o dano que acaba por tentar catapultar o filme na direção do fantástico. Com uma certa inspiração visual no As Aventuras de Pi de Ang Lee, o filme tenta atribuir ao mágico parte do sucesso da empreitada, e a cena, não somente se mostra feia no ponto de vista imagético, como absolutamente errada para o seu protagonista. Um homem que venceu todos os obstáculos para conseguir realizar o que fez, não precisava ter seus méritos apontados como da ordem do fabuloso. Ainda assim, 100 Dias se sai melhor do que poderíamos imaginar, pelo que sua proposta de radiografar da melhor maneira possível a mecânica da situação, que passa ao largo do campo emocional que o filme nos tenta introduzir, com resultados inferiores. 

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