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“Evanqueer” debate vivências evangélicas de pessoas queer

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É possível conciliar aquilo em que acreditamos com aquilo que somos? A pergunta atravessa “EVANQUEER”, espetáculo criado e protagonizado por Marcielly Vanucci e Cesar Romeo Marins, com direção de Fernanda Brandt, a montagem parte das experiências dos dois artistas em igrejas evangélicas para construir uma investigação cênica sobre fé, identidade, desejo, memória e pertencimento.

Ela nasceu em Itaboraí e cresceu na Igreja Batista, entre o grupo de louvor, coreografias e atividades religiosas, enquanto descobria sua sexualidade na adolescência dos anos 2000. Ele, criado na Maré e filho de pastor, encontrou no teatro da igreja um de seus primeiros espaços de expressão artística. As experiências particulares de Marcielly e Cesar se cruzam no palco para falar de uma relação com a religiosidade que comporta afeto, contradições, perguntas e descobertas.

Em cena, os artistas transformam o teatro em uma espécie de culto reinventado. Memórias pessoais convivem com referências bíblicas, música, humor, performance e imagens audiovisuais, enquanto a cenografia, formada por televisores, dialoga com a presença da cultura evangélica nos meios de comunicação e com o imaginário do televangelismo que marcou especialmente as décadas de 1990 e 2000.

“Evanqueer é, além de resistência, a celebração da existência queer. É a reconexão com a fé que é negada às pessoas LGBTQIA+ pela igreja. Evanqueer conta a trajetória de uma atriz e um ator queer que cresceram dentro da igreja evangélica. Através de símbolos nostálgicos dos anos 2000, a cultura ballroom e uma banda ao vivo para acompanhar o louvor, a narrativa transita entre o sagrado e o profano e o resgate de memórias dos próprios atores, a fim de responder uma simples pergunta: é possível ter fé no humano?”, conta a diretora, Fernanda Bradt.

A dimensão audiovisual é central para a montagem. TVs ocupam o espaço cênico e atravessam o espetáculo com imagens, referências e fragmentos de memória, construindo uma linguagem híbrida entre teatro e audiovisual. A própria expansão da obra para além do palco integra sua proposta artística, com a produção de conteúdos audiovisuais relacionados ao processo de criação.

A encenação não parte de uma negação da experiência religiosa. Ao contrário: investiga também aquilo que a igreja ofereceu à formação dos artistas. Canto, dança, teatro, contato com o público e criação estiveram presentes desde cedo em suas trajetórias. A partir dessas memórias, EVANQUEER busca produzir aproximações entre universos que muitas vezes são apresentados apenas como incompatíveis. O espetáculo se propõe a dialogar tanto com públicos LGBTQIAPN+ quanto com pessoas que possuem ou tiveram vínculos com comunidades religiosas.

“É muito bom não precisar negar quem é, e melhor ainda, poder reconhecer o que foi. Não vamos apagar nada, vamos dar luz aos caquinhos, acender o holofote no mosaico complexo da vida. Alguns artistas que viveram experiências evangélicas apagam essa parte e pessoas que convivem em espaços religiosos não gostam de ver as atrocidades cometidas. Tem tudo. Nada é irreal. Está tudo aqui na minha pele. E vamos partilhar nesse rito que é Evanqueer!”, revela uma das idealizadoras do projeto, Marcielly Vanucci. 

“Quando imaginei evanqueer, era uma tentativa de resgatar o que aprendi a calar. Lembrei de quando sair da igreja e cheguei no “mundo”. Eu percebi que não posso simplesmente arrancá-la de mim sem sentir que também estou arrancando uma parte de quem sou. Se na igreja precisei negar minha sexualidade, fora dela precisei aprender a olhar pra fé de outra maneira. Entendi que preservar certas coisas não é negar outras, mas reconhecer as contradições que nos atravessam e questionar o que aprendemos a negar. Evanqueer é também uma tentativa de me reconciliar com essas partes de mim e de seguir buscando uma forma de existir com inteireza”, finaliza o artista Cesar Romeo, também idealizador do espetáculo. 

SERVIÇO: De 30 de outubro a 8 de novembro / Local: Sede Cia dos Atores
Endereço: Escadaria Selarón, 12 – Lapa / Ingressos: Sympla
Classificação indicativa: 16 anos

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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