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 Masculinidade frustrada permeia “As Coisas Que Me Tiram O Sono”

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O que acontece quando a sua vida desmorona e você é o último a perceber? Aos 20 e poucos anos um cara vê sua vida sair dos trilhos um ano após a morte de seu pai, que se recusou a fazer um exame do toque. E perde, em sequência, o emprego, a namorada e o apartamento, entrando numa espiral de loucura, achando que o mundo o está punindo. Tentando desesperadamente recuperar algum controle sobre a própria existência, esse Cara protagoniza “As coisas que me tiram o sono“.

“As coisas que me tiram o sono” é um retrato tragicômico de uma geração que sabe falar sobre tudo, menos sobre aquilo que realmente sente. Uma peça sobre a frustração masculina e suas consequências, homens em crise, a internet como último recurso de socorro emocional e a possibilidade de que, às vezes, o maior obstáculo entre nós e uma vida melhor sejamos nós mesmos. 

“No vácuo deixado pela masculinidade, que está espatifada, vemos homens desesperados para se agarrar a ideias arcaicas do que significa ser homem e uma legião de jovens frustrados, ressentidos e solitários, mergulhados em fóruns virtuais, pornografia e discursos de ódio, tentando encontrar algum sentido para as próprias frustrações. Muitas vezes, essa frustração não consegue ser elaborada e acaba se transformando numa raiva profunda de si mesmos e do mundo. Em casos extremos, essa raiva pode produzir consequências devastadoras”, analisa Vicente.

A ideia do personagem surgiu num exercício cênico que Vicente, estudante por um ano da University of California, realizou na Oficina de Dramaturgia coordenada pela professora visitante Cherie Moraga: um homem que perdeu sua referência de masculinidade e vive uma espiral de merdas, causadas pelo seu próprio desequilíbrio e mentiras compulsivas. “Olhei para essa figura por uma perspectiva diferente daquela que costuma aparecer na mídia: olhar para o homem frustrado por dentro, mas de dentro da cabeça dele. Entender como alguém constrói uma lógica em que tudo parece fazer sentido, mesmo quando esta lógica é completamente delirante. Um personagem contraditório, escroto, maluco, mas cuja perspectiva o espectador fosse capaz de acompanhar, e talvez até de reconhecer em si mesmo em alguns momentos”, adianta. 

O primeiro monólogo de Vicente ecoou em Alexandre Dal Farra, que possui suas razões para acreditar que o tema pode ser, sim, uma coisa que tire o sono. “Sou pai de três filhos homens, de 22, 13 e 11 anos, cada um deles lidando com os dilemas da masculinidade. Pra mim, essa questão nunca foi muito bem resolvida, tanto em termos pessoais, como políticos. E o tema do espetáculo se encontra com a sua forma: vemos um homem vulnerável em cena, e a questão da masculinidade tóxica tem muito que ver com a incapacidade masculina de lidar com a própria vulnerabilidade. Essa casca masculina intransponível, essa armadura social, é também a casca de uma cena construída por um ator que domina seu papel e seu público”, observa o diretor.

Embora sozinho em cena, Vicente tem a oportunidade de ‘esbarrar’ com 10 personagens através das trocas do Cara, o personagem central. A escolha do formato da peça reforça em Vicente a solidão do próprio personagem, dentro de seu quarto bagunçado, com Cheetos e Toddy, e coisas que ele gosta de socar. “Tudo o que conhecemos na peça chega até nós pelo olhar e pela lógica dele, que é também um mentiroso compulsivo, gerando um efeito de narrador não-confiável, onde você nunca sabe se ele está contando o que de fato aconteceu ou se está tumultuando a verdade dos fatos para favorecer a sua narrativa”, entrega Valle.

Vicente acredita que muitos homens na plateia vão identificar em si mesmos alguns pensamentos, atitudes e lógicas semelhantes a do seu personagem, ideias que às vezes alguns homens têm, mas não contam para ninguém. Do mesmo modo, crê que muitas mulheres possam ver no Cara o reflexo daquele amigo que está passando por um momento estranho, ou do seu próprio filho, primo ou sobrinho que está sozinho o tempo todo, mas a maioria do tempo conectado. 

“É difícil não achar que a internet piorou tudo. Temos um algoritmo que privilegia o ódio, os fóruns sem lei da internet, onde você entra em contato com pessoas que reforçam os seus pensamentos autodepreciativos e paranoicos. E isto aumenta o ciclo de retro afirmação desses raciocínios paranoicos”, pontua Vicente. “Com certeza os elementos tecnológicos facilitam e desdobram os caminhos dessa masculinidade, mas não são as suas causas. São facilitadores de estruturas anteriores que eles ajudam a existir. Mas a questão da masculinidade aparece também com força num cenário como o fascismo histórico, e há teóricos que pensam isso, como Klaus Theweleit, por exemplo”, complementa Alexandre.

E para quem imagina encontrar uma solução fácil ou imediata para o tema da cadeira do teatro, um aviso de antemão do autor, que prima pela reflexão individual antes de qualquer coisa a partir de sua performance cênica. “Pode esperar uma peça engraçada, honesta e que pode causar desconforto. Mas não tenho a pretensão de oferecer uma solução para nada disso. O espetáculo não quer condenar esse personagem, mas também não quer passar a mão na cabeça dele. Não quer salvá-lo, nem vitimizá-lo. Mas, se alguém sair do teatro querendo conversar com outra pessoa, não só entre homens, mas entre todas as pessoas que convivem com alguém que esteja passando por esse tipo de situação, ou até olhar para si mesmo de uma maneira diferente, já fico feliz. Missão cumprida”, encerra Vicente Valle. 

SERVIÇO Temporada: 3 de novembro a 16 de dezembro / Horário: Terças e quartas-feiras, às 20h / Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/ Local: Teatro Poeirinha Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo Classificação Indicativa: 16 anos / Instagram: @ascoisasquemetiramosono

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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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