- Publicidade -

Casa Roberto Marinho apresenta Guardar, exposição dedicada ao acervo particular de Marcia e Luiz Chrysostomo 

Publicado em:

A Casa Roberto Marinho recebe a exposição “Guardar, exposição dedicada ao acervo particular de Marcia e Luiz Chrysostomo”, coleção de destaque no panorama das artes visuais no país, formada ao longo de três décadas e hoje composta por mais de 2 mil itens. Com curadoria de Paulo Venancio Filho, a exposição apresenta cerca de 300 obras e percorre diferentes momentos da arte brasileira e internacional, das vanguardas do início do século XX à produção contemporânea.

A exposição amplia uma relação iniciada em 2023, quando o casal participou de Conversas entre Coleções, também na Casa Roberto Marinho, estabelecendo diálogos entre trabalhos de seu acervo e obras da instituição. Agora, pela primeira vez, a Casa dedica uma mostra exclusivamente a esse conjunto.

Um poema do filósofo e escritor carioca Antonio Cícero, de 1996, que acompanha Luiz Chrysostomo há décadas, inspira o título da exposição. A ideia de guardar como gesto de cuidado e preservação encontra correspondência na própria história da coleção, que não nasceu de um projeto previamente definido, mas de uma relação continuada com a arte.

Josef Albers (1888-1976) e Max Bill (1908-1994), referências fundamentais da abstração geométrica e do pensamento construtivo, abrem a exposição frente a frente. A escolha funciona, segundo Venancio Filho, como uma espécie de “declaração” da curadoria e estabelece uma chave que se desdobra pelo percurso. A partir deles, a mostra acompanha diferentes caminhos do pensamento construtivo e suas reverberações na arte brasileira, aproximando tempos, geografias e linguagens.

“Uma coleção é uma constelação viva”, escreve Paulo no texto curatorial. Para ele, um acervo dessa natureza nunca está concluído: cada nova aquisição cria relações e contágios intencionais ou inesperados. Seu ponto de partida foi reconhecer a fisionomia que Marcia e Luiz imprimiram ao conjunto ao longo dos anos. “Meu cuidado foi não chegar com a autoridade do curador. Procurei entender a coleção tal como ela é.”

A geometria e a cor conduzem as primeiras salas, com nomes como Ivan Serpa, Amilcar de Castro, Judith Lauand, Sergio Camargo e Franz Weissmann, ao lado de artistas internacionais como Bridget Riley e Vera Molnár. A relação entre abstração geométrica e arquitetura moderna aparece em outro núcleo, no qual obras convivem com projetos e publicações ligados a Oscar Niemeyer, Le Corbusier e à Bauhaus.

O percurso avança para experiências das décadas de 1960 e 1970, reunindo trabalhos de Cildo Meireles, Artur Barrio, Antonio Dias, Waltercio Caldas, Carmela Gross, Carlos Vergara e Rubens Gerchman, entre outros. Mais adiante, a aproximação entre arte e palavra ganha protagonismo. Antonio Manuel e exemplares do Poema/Processoabrem caminho para um núcleo no qual poesia visual, livros de artista e experimentação gráfica colocam em diálogo nomes como Mira Schendel, Hélio Oiticica, Rubem Valentim, Luciano Figueiredo, Man Ray, Augusto de Campos e Julio Plaza.

O interesse de Luiz Chrysostomo pelas origens e desdobramentos dos movimentos artísticos também permeia a mostra. Um dos núcleos parte das vanguardas históricas europeias e de suas repercussões na arte brasileira e latino-americana, com trabalhos de Wassily Kandinsky, Paul Klee, Joaquín Torres-García, Georges Braque, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Cícero Dias e Oswaldo Goeldi.

Livros de artista, publicações raras e documentos históricos, apresentados em vitrines, reforçam o caráter investigativo da coleção e seu interesse pelas origens de questões presentes na produção brasileira. Entre os exemplares selecionados estão marcos ligados à Bauhaus e à VKhUTEMAS, escola de arte e design criada na Rússia nos anos 1920; Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), publicado em 1912 por Wassily Kandinsky e Franz Marc; e La Fin du monde filmée par l’Ange N.-D., de Blaise Cendrars, publicado em 1919 com ilustrações de Fernand Léger. O conjunto atravessa o século XX e chega à produção contemporânea, com exemplares de Max Bill e Josef Albers, e livros de artista de Beatriz Milhazes.

Outro núcleo se volta para o pensamento construtivo no Brasil e na América Latina. Lygia Clark, Lygia Pape, Hélio Oiticica, Ivan Serpa, Aluísio Carvão, Amilcar de Castro e Geraldo de Barros convivem com artistas latino-americanos, evidenciando aproximações e diferentes caminhos desenvolvidos a partir do concretismo e do neoconcretismo. Entre os nomes reunidos, Venancio Filho chama atenção para Rubem Ludolf, artista próximo de Luiz Chrysostomo, cuja obra considera particularmente importante dentro da ideia de construção que orienta a mostra.

A arte cinética ocupa a sala considerada pelo curador um dos pontos altos da exposição. Obras de Abraham Palatnik, Julio Le Parc, Carlos Cruz-Diez, Jesús Rafael Soto, Sérvulo Esmeraldo, Luis Tomasello e Martha Boto, entre outros, mostram como movimento, luz e participação do olhar ampliaram as pesquisas do campo construtivo. Marcel Duchamp aparece como um dos precursores dessa experimentação.

Na sequência, a escala muda. Na maior sala da Casa Roberto Marinho, obras de grande formato, predominantemente tridimensionais, ocupam o chão, as paredes e o teto, criando uma espécie de passeio entre os trabalhos. Estão nesse núcleo Tunga, Ernesto Neto, Tomie Ohtake, Elisa Bracher, Ivens Machado, Ascânio MMM e Sheila Hicks.

A Geração 80 e seus desdobramentos introduzem outra inflexão. A relação com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage confere ao núcleo uma dimensão particularmente afetiva para Luiz Chrysostomo, que estudou na instituição em meados dos anos 1980. Daniel Senise, Cristina Canale, Leda Catunda, Luiz Zerbini e Beatriz Milhazes aparecem ao lado de artistas de outras gerações, como Lucia Laguna, Rosângela Rennó, José Damasceno e Rebeca Carapiá.

A exposição termina com um conjunto dedicado à abstração brasileira. Alfredo Volpi, Iberê Camargo, Maria Leontina, Ione Saldanha, Antonio Bandeira, Aluísio Carvão e Maria Polo estão entre os artistas reunidos nesse núcleo.

Uma coleção construída no tempo

A coleção de Marcia e Luiz Chrysostomo começa a ganhar forma em 1993, com a compra de uma tela da pintora e gravadora italiana Maria Polo, de 1964. A obra, hoje apresentada em Guardar, marca o início de um processo que não partiu da intenção de formar uma coleção. O conjunto foi crescendo a partir do interesse do casal pela arte, da convivência com artistas e galeristas e das escolhas feitas ao longo do caminho.

Economistas de formação, Marcia e Luiz construíram trajetórias profissionais distintas, sem se afastar do interesse comum pela arte. Luiz desenvolveu uma atuação continuada no campo cultural, como curador e também no âmbito institucional. Marcia, com trajetória profissional no mercado financeiro, é psicanalista, mestre em Economia e pós-graduada em História da Arte e Arquitetura, com pesquisa dedicada à obra de Ione Saldanha. Desde a primeira aquisição, uma escolha compartilhada com Luiz, Marcia participa ativamente da construção do acervo, na discussão sobre a incorporação de novas obras, na convivência com artistas e nas pesquisas e visitas a museus realizadas pelo casal.

Com o passar dos anos, o acervo adquiriu uma estrutura própria, marcada pelo pensamento construtivo, pela investigação das origens dos movimentos e pelas relações que as obras estabelecem entre si. “A palavra construção é a coisa mais forte da coleção”, afirma Luiz. Para ele, a definição não se restringe à geometria rígida: abrange o círculo, a curva, o ponto, a linha, a palavra e a poesia.

A coleção permanece, ao mesmo tempo, atenta ao presente. A experiência de Luiz como curador e sua atuação em instituições culturais o mantêm em contato próximo com diferentes gerações de artistas. Ao lado de nomes consagrados, o acervo reúne trabalhos adquiridos no início de determinadas trajetórias, antes de seu reconhecimento no circuito.

As aquisições não obedecem a um roteiro fechado. “Não existe acaso, existe impulso”, resume Luiz. A atração por uma obra pode ser imediata, mas a escolha passa por um olhar formado ao longo do tempo e por uma reflexão sobre o próprio trabalho. Uma aquisição pode levar a outra, e obras compradas em momentos distintos estabelecem novas relações quando reunidas: um processo que o colecionador define como um “mosaico infinito”.

A coleção começa em 1993, mas a história de Luiz Chrysostomo com a Coleção Roberto Marinho havia começado nove anos antes. Em 1985, aos 21 anos, ele visitou três vezes a exposição Seis décadas de arte moderna na Coleção Roberto Marinho, no Paço Imperial. Naquele momento, estudava Economia e frequentava a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, dividido entre a formação acadêmica e um interesse pela arte que continuaria presente ao longo de sua vida.

O contexto cultural do Rio era muito diferente. O acesso a exposições, publicações e reproduções de obras era limitado. Encontrar reunida no Paço Imperial uma coleção privada de grande dimensão significou a possibilidade de ver pessoalmente trabalhos e artistas que conhecia sobretudo pelos livros. “Foi uma epifania”, recorda. Luiz passou horas na exposição, voltou outras vezes e guardou o pequeno catálogo distribuído na ocasião. A experiência permaneceu como referência, embora a ideia de tornar-se colecionador ainda estivesse distante.

Quarenta e um anos depois, a coleção formada por ele e Marcia ocupa a Casa Roberto Marinho. O movimento teve peso na decisão do casal de aceitar o convite. Avessos à exposição pessoal, hesitaram diante da ideia de apresentar publicamente um acervo construído no âmbito privado.

“A coleção não é um troféu. É um testemunho de uma vida, de um olhar, de uma forma de encarar o mundo”, observa Luiz. A possibilidade de proporcionar a outros visitantes uma experiência semelhante à que teve aos 21 anos ajudou a mudar essa perspectiva. Parte dos trabalhos reunidos em Guardar, especialmente obras históricas internacionais, raramente pode ser vista no Brasil.

O colecionismo ultrapassa, aqui, o âmbito privado. Para Venancio, coleções particulares podem contribuir para suprir lacunas dos acervos públicos: “O sentido maior é o de resguardar o que tem relevância não só para o colecionador, mas para as artes plásticas brasileiras”, analisa.

Essa compreensão se manifesta na relação de Marcia e Luiz com o acervo, cujas obras são frequentemente emprestadas a instituições e exposições. É nesse movimento que a preservação se associa ao desejo de tornar as obras visíveis e acessíveis a outros públicos.

A mostra inaugura um projeto da Casa Roberto Marinho que poderá receber futuramente outras coleções particulares. Segundo Lauro Cavalcanti, diretor-executivo da instituição, a abrangência, a qualidade das obras e o rigor na constituição do acervo de Marcia e Luiz Chrysostomo contribuíram para sua escolha para iniciar o programa.

SERVIÇO: Abertura pública: 19 de novembro de 2026, às 12h Encerramento: 14 de março de 2027 / Local: Instituto Casa Roberto MarinhoEnd: Rua Cosme Velho, nº 1105
Visitação: terça a domingo, das 12h às 18h
(Aos sábados, domingos e feriados, a Casa Roberto Marinho abre a área verde e a cafeteria a partir das 9h.)

Estacionamento gratuito para visitantes, em frente ao local.

Rota Cult
Rota Cult
Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -