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‘Prazer, Zezé!” apresenta arqueologia de uma Fênix da canção

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O aforismo “Se qualquer mulher sentir que precisa de qualquer coisa além de si para legitimar e validar sua existência, ela já estará abrindo mão de seu poder de se autodefinir, de seu protagonismo” é um dos escritos mais ferozes da ativista bel hooks (1952-2021), em suas observações acercas da resiliência feminina. Essa fala encontra no contagiante “Prazer, Zezé! O Musical” uma tradução canora. No espetáculo, o que se vê é o processo carnal de combate.

Foto: Ricardo Guzzo

Em sua vida, Maria José Motta de Oliveira agarrou-se ao “não é não” com destreza e encontrou um pavimento para sobreviver aos azedumes sexistas do Brasil em que nasceu, há 82 anos: o canto. Cantando, ela se fez gigante. Mais: virou uma bússola pra populações pretas. 

Idealizado e escrito por Toni Brandão, seu biopic teatral se refestela no carisma de sua sagaz protagonista, Larissa Noel, não apenas em sua extensão e em sua precisão vocal, mas em sua maviosa expressão corporal. Mais do que isso, a dramaturgia se afina à dimensão simbólica de Zezé num dispositivo comovente, acionado em seu clímax, onde cada artista preto no palco, no elenco ou na orquestra, apresenta-se para o público, num combate à invisibilidade, que é um dos tentáculos do celacanto chamado racismo. Certamente, um celacanto que açoita e agrilhoa.   

Depois de uma temporada de sucesso em São Paulo, “Prazer, Zezé! O Musical” chega ao Rio, sob a direção artística de Débora Dubois, passando em revista como a pequena Maria José, nascida em Campos dos Goytacazes, cercada de música por todo lado, ganhou o país, após uma série crudelíssima de testes. Antes de estrear no explosivo “Roda Viva”, ela teve que ouvir muitas vezes que tinha “uma região calipígia grande demais”, “um nariz imenso”, “pouco ou nenhum peito”, “um visual andrógino em demasia”. As violências chegavam a granel.

Aliás, essa agressão do colonialismo – que ela enfrentou ao longo de seis décadas, e segue a enfrentar – foi materializada de forma cinematográfica em sua trajetória laboral em sua atuação no subestimado Alemão 2″(2021), no qual faz uma enfermeira acossada pelos tiros do tráfico. Um policial pergunta: “Por que não cursou Medicina, se sabe tanto?”. E ela retruca: “Uma médica preta, aqui?”. Esse retrucar dói, sobretudo ouvido dos lábios de uma estrela que viveu Deus em A Comédia Divina (2017).   

“PRAZER, ZEZÉ!” convida o público a conhecer de perto uma mulher que amplia as possibilidades de ser e estar em cena.

Mesmo fustigada com “nãos!”, Zezé não desistiu. Em sua caminhada, encontrou aliadas, entre elas, Marieta Severo, que enche o João Caetano de luz na atuação dos capetas de Josie Antello, diva habitual do cinema de Julio Bressane. 

Para além da imersão em Roda Vida, onde as duas se cruzam, a Zezé do recorte histórico de Brandão reconstruí o encontro da cantora e atriz com o movimento antirracista dos Panteras Negras, em Nova York, no fim dos anos 1960, e revisita sua fase de apogeu na telona com “Xica da Silva” (1976), sob a direção de Cacá Diegues (1940-2025), que vendeu 3.183.582 ingressos.

Na engenhosa direção de arte de Billy Castilho, o cenário é calçado por fotos (reais) do passado que constroem uma arqueologia pictórica da resistência, indo até as articulações de Zezé nos anos da covid-19, a trabalhar com lives fundamentais à campanha do #fiqueemcasa de 2020 e 2021. O musical, certamente, é uma prova do efeito Fênix de uma genial artesã da canção, brilhante também ao atuar. 

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