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Teatro Qorpo Santo da UFRJ reabre com a peça “Entre Ratos”

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Depois de um longo período fechado por problemas de infraestrutura, o Teatro Qorpo Santo, localizado no Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, recebe o espetáculo “Entre Ratos“. Com direção de Daniel Chagas, a peça marca a estreia de Miguel Serpa como dramaturgo, com uma obra que aborda vivências LGBTQIA+, saúde mental e relacionamentos abusivos.

A peça é ambientada em uma clínica psiquiátrica de elite que enfrenta uma infestação de ratos, mas precisa lidar com outro problema ainda mais grave: o assassinato da psiquiatra-chefe, Dra. Brigitte Webber. Enquanto o crime é investigado, a narrativa acompanha a relação entre dois internos, Maurício e Lucas. O primeiro é tímido e acanhado; o segundo, expansivo e violento. À medida que se envolve cada vez mais com o namorado, Maurício passa a questionar até onde Lucas é capaz de chegar quando se vê encurralado.

Segundo Miguel Serpa, “Os pacientes, abandonados na clínica por suas famílias, passam a habitar este submundo da onde suas vidas foram suspensas, como uma segunda classe que ninguém quer ver. Além da degradação física do espaço, temos a degradação psicológica e moral dessas personagens”, afirma o dramaturgo, que também integra o elenco. 

Aliás, a escolha do espaço foi certeira. O prédio que abriga o Teatro Qorpo Santo era, originalmente, um observatório e laboratório de psicologia experimental. Com a Reforma da Psiquiatria, nos anos oitenta, o prédio foi transformado em um teatro pelo então diretor do IPUB, Rafaelle Infante. A ideia do projeto era unir teatro com saúde mental. Com o passar dos anos, o teatro foi fechado devido a problemas de infraestrutura, sendo reaberto somente em abril de 2026, graças a uma emenda parlamentar de Jandira Feghali. 

“É uma honra poder reabrir o teatro para o grande público com um texto que fale abertamente sobre saúde mental, dando continuidade ao trabalho de Infante em casar o teatro com a psiquiatria. Acredito que não só o teatro, mas a cultura em geral, tem o poder de dar voz às pessoas que ficam a margem, possibilitando que expressem seu olhar e considerações sobre a própria condição de uma forma humana, sejam internos de uma clínica, ou simplesmente pessoas neurodivergentes, como eu”, comenta Miguel Serpa. 

Formado no curso técnico da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), Miguel conta que a ideia da peça surgiu a partir de duas experiências vividas durante sua formação. Em Sangue, do dramaturgo norueguês Lars Norén, Miguel interpretou Luca, um jovem agressivo e violento. No mesmo período, deu vida a Moritz, personagem de O Despertar da Primavera, marcado pela fobia social e pelo medo do sexo.

“Nessa experiência de dar vida a dois personagens completamente diferentes no mesmo período, eu comecei a imaginar como seria se um dia Luca e Moritz se encontrassem, e como seria a relação entre eles. Dessa ideia, eu criei Maurício e Lucas, e todo o contexto da clínica veio através disso”, explica. Entre as referências para a construção da dramaturgia, Miguel também cita Nelson Rodrigues, Tennessee Williams e a filmografia de Gregg Araki, cineasta associado ao movimento New Queer Cinema.

Em cena, o jovem ator e dramaturgo divide o palco com Rafael Petito, Luar Boemer, Frida Motta, Victor Carvalho e Aldrin Cordeiro. Sobre a direção de Daniel Chagas, Miguel destaca que o trabalho do diretor, marcado pela fisicalidade dos atores, ajudou a transformar a verborragia do texto em ação e movimento, contrapondo-se à sua tendência mais textocêntrica.

Segundo o diretor, ” “Entre “Ratos foi concebido para deixar o Teatro explícito. Enquanto veículo, enquanto edifício, enquanto leitura da humanidade. Estamos dentro do IPUB, essa concretude me impulsionou a buscar outra forma de desenvolver a existência ficcional da peça. Seria pequeno tentar reproduzir alguma imagem de verossimilhança, acabaríamos engolidos pela realidade do próprio Instituto. Diante desta condição, optei por não deixar dúvidas que Entre Ratos é uma peça de teatro e não a reprodução mimética da vida. Fazemos isso assumindo conceitos habituais do Teatro Épico. A ficção é constantemente capturada pelo artifício cênico. O público acompanha como o fazer teatral constrói e desconstrói a condução narrativa, o espaço e as próprias personagens”, revela Daniel Chagas. 

Criada por artistas recém-formados em busca de espaço na cena teatral, a montagem reflete o olhar de uma geração que cresceu ouvindo que os preconceitos haviam sido superados, mas ainda convive com eles cotidianamente. “Em um momento do nosso país em que pessoas LGBTQIA+ são crescentemente desumanizadas e usadas de palanque para pânico moral e discursos de extrema direita, acredito que seja importante dar voz a criadores queer, para que se expressem livremente e exporem suas perspectivas sobre a própria existência”, conclui Miguel.

SERVIÇO Temporada: 06 a 29 de novembro / Dias e horários: Sexta, sábado e domingo às 19hLocal: Teatro Qorpo Santo IPUB UFRJ – Rua Venceslau Brás 95, Praia Vermelha Classificação: 16 anos

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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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