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A Única Saída: Park Chan-wook revela sua assinatura mais cruel e brilhante

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A Única Saída, novo filme de Park Chan-wook, começa como um comercial de margarina perfeito: sol forte, churrasco no quintal, casa grande cercada por floresta, estufa com flores raras, com uma esposa troféu, um filho adolescente andando de bicicleta, uma filha de dez anos tocando violoncelo com talento raro e dois cachorros, certamente, completando o quadro perfeito. O protagonista, abraçado à família, declara orgulhoso: “Eu tenho tudo”. Mal sabe ele que, minutos depois, após vinte e cinco anos de serviços impecáveis numa fábrica de celulose, será demitido sem cerimônia pela nova direção americana.

Porém, a partir daí, o filme muda de tom com uma precisão cirúrgica. A paleta solar e vibrante dá lugar a cores desbotadas e frias, melancólicas. A fotografia acompanha o esfacelamento da vida do protagonista: demitido, ele tenta se reerguer do jeito convencional (terapia, currículos, otimismo forçado), mas, dezoito meses depois, ainda está desempregado. O dinheiro da rescisão acaba, os luxos são cortados, e a esposa, que nunca precisou trabalhar, agora é secretária de dentista. A família idílica vira um campo minado de silêncios e frustrações.

É nesse desespero que Park Chan-wook revela sua assinatura mais cruel e brilhante. O pai, obcecado por uma vaga numa concorrente, descobre os nomes dos rivais e passa a orquestrar, com métodos extremos e um humor sombrio inconfundível, a eliminação da concorrência. As situações de A Única Saída beiram o absurdo, provocam risos envergonhados e, ao mesmo tempo, uma tensão insuportável — marca registrada do diretor de Oldboy (2003).

O roteiro de A Única Saída conduz o espectador pela mão nessa transformação do luminoso ao lúgubre sem nunca soltar. São quase duas horas e meia de filme que passam voando, graças ao ritmo impecável, à direção magistral e à forma como Park equilibra suspense, ironia e tragédia familiar. Cada cena parece inevitável, cada virada, moralmente ambígua.

A Única Saída estreia dia 22 de janeiro e é, sem dúvida, a grande aposta da Coreia do Sul para o Oscar 2026 — está na pré-lista de Melhor Filme Internacional. Quem gosta do cinema afiado e incômodo de Park Chan-wook não pode perder. Super recomendo: vá sem saber o desfecho, até para aproveitar a ironia da cena final — e porque estragar a surpresa seria um crime.

Desliguem os celulares e excelente diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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