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Sirât: Olivier Laxe apresenta road movie  claustrofóbico

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Sirât, do cineasta espanhol Olivier Laxe, começa no meio de um deserto, em uma rave que parece saída de outro mundo com luzes piscando, música pulsando, corpos suados, tudo sob um sol de rachar. Luís e Esteban, pai e filho, serpenteiam entre a multidão distribuindo fotos da filha e irmã desaparecida há seis meses. A angústia já está lá, quieta, mas afiada, como um fio esticado. Quando o exército irrompe e tudo vira caos, o filme vira estrada: eles seguem cinco amigos franceses — Bigui, Steph, Josh, Tonin e Jade — rumo à próxima festa, em uma jornada que mistura busca desesperada com um pós-apocalipse fashion.

O que, certamente, impressiona é como Laxe transforma o que seria apenas um road movie igual a tantos outros em algo quase claustrofóbico. A câmera não larga os carros, o calor, o suor e o barulho. É Mad Max sem explosões, mas com a mesma sensação de mundo em colapso: figurinos rasgados, maquiagem borrada, olhares vazios. Aliás, a tensão não vem da ação; vem do vazio. A cada nova curva, a esperança morre mais um pouquinho, devagar. O pai, vivido por Sergi López, carrega o peso no rosto; o filho, interpretado por Bruno Nuñez, parece sempre a um passo de quebrar.

Tecnicamente, Sirât é um soco no estômago desferido com toda a força por Immortan Joe. A fotografia captura o deserto de forma vívida e deveria ter sido indicada ao Oscar, mas não foi. Já o som foi indicado, e sua nomeação soa como justiça. Sob a batuta de Laia Casanovas e de uma equipe quase inteiramente feminina, o som é o verdadeiro protagonista — um personagem que respira, grita e engole a conversa. Os graves da rave e os ruídos da imensidão desértica batem no peito. O vento corta a fala, e o silêncio depois do caos dói. Se algum Oscar devesse ser hors concours, seria esse.

Mas o que segura o espectador em Sirât é o aspecto emocional. Não é só uma busca, é o que acontece quando o amor vira obsessão, quando pai e filho se perdem tentando encontrar a menina. Sentimos a exaustão, a culpa e o medo de que ela já não exista mais. São 115 minutos que não deixam respirar, mas também não deixam desistir.

Por último, ignorem toda e qualquer birra alimentada por declarações irresponsáveis — Olivier Laxe pode ter falado besteira sobre O Agente Secreto e os brasileiros, mas isso verdadeiramente não importa. Sirât, representante da Espanha indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, não precisa de militância para brilhar. É um dos melhores filmes de 2025, ponto. Vá assistir: entre sem saber nada, saia com o peito apertado — e, quem sabe, um pouco mais vivo.

Desliguem os celulares e excepcional diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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