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Mother’s Baby: Johanna Moder constrói um suspense angustiante

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Mother’s Baby, da diretora Johanna Moder, chega como um soco quieto: a tela escura, o silêncio que pesa e, de repente, a gente já está dentro da cabeça de Julia (Marie Leuenberger), uma maestrina de sucesso que, junto com o marido Georg (Hans Löw), tenta engravidar. Não é terror, não é drama comum, é algo que te faz prender o fôlego sem saber por quê. Desde o início, fica claro que não será fácil: o ritmo lento, as luzes frias, tudo parece dizer “aguenta aí”. E, com a ajuda do médico Vilfort (Claes Bang), eles conseguem. 

Com o passar do tempo, Julia começa a sentir uma estranha inquietação. Ela não reconhece o filho, será que aquele bebê é realmente dela? E aí reside a força de Mother’s Baby: na ambiguidade. A gente duvida o tempo todo. Estamos diante de uma depressão pós-parto? Ou há algo de errado com a criança? A direção e o roteiro evitam o didatismo, e isso é ótimo. Os closes no rosto da protagonista, a quase ausência do choro infantil, o jeito como o marido parece distante… tudo isso constrói um suspense angustiante. É como se o filme respirasse com ela.

Mas aí surge o problema: Mother’s Baby não oferece uma saída. O desfecho é abrupto, quase cruel, não encerra, não consola, não provoca raiva nem alívio. E isso dói. A paciência que o filme exige não se refere apenas ao tempo de tela, afinal, não é muito longo (1h48), mas a suportar o vazio que surge depois. E, se isso não bastasse, a fotografia sorumbática, o rigor do inverno europeu, a neve e o céu cinza-chumbo que tomam conta da cena intensificam essa dor e a crueza do instante final.

Lá pelas tantas, Mother’s Baby flerta com a ficção científica sem jamais assumir: e se o problema não for apenas mental? E se a fertilização, o corpo, o filho… tiverem se transformado em outra coisa? Essa é uma das perguntas que o desfecho abrupto não responde. Nesse ínterim, o acréscimo de axolotes — anfíbios também conhecidos como salamandra-mexicana e de laboratórios secretos na trama fazem você cogitar uma súbita mudança de gênero, deixando o espectador refletindo por dias.

Mother’s Baby é um filme que não te abraça, ele te deixa sozinho com as perguntas. E, de um jeito torto, é isso que o faz permanecer na memória. Se você suportar o silêncio, sairá transformado. Recomendo só para quem tiver estômago para a dor sem resolução. Para quem passou por depressão pós-parto, ou está próximo de alguém que esteja passando, pode ser forte demais.

Desliguem os celulares e boa diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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