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François Ozon traz maior protagonismo para as mulheres da história, em O Estrangeiro

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O anúncio de que o próximo filme de François Ozon seria uma adaptação do clássico de Albert Camus, pegou os fãs e espectadores em geral desprevenidos, e surpresos. Não porque essa seria a primeira readaptação de uma obra organizada pelo cineasta francês, mas pela jornada de empreitada debruçado a esse projeto que poder ter a ideia de que a qualquer momento. O Estrangeiro acaba por ser uma comunicação com seus autores, ao passo que também se mostra uma ousadia formal em torno de um tema que o diretor nunca se debruçou: a incomunicabilidade. De natureza verborrágica por muitas vezes, o cinema de Ozon é, em tese, o oposto do que se imagina de Camus na essência – a expressão como código definidor do que se sente, e precisa ser alcançado de alguma maneira, pela voz ou pelo corpo. 

De mergulho abstrato, configurando os códigos de vazio que seus personagens sentem e vivenciam, muitas vezes sem verbalizar, Camus representa um desafio por suas intransponibilidades de muitas ordens. Uma delas é essa aparente ausência de conflitos, onde o turbilhão de sensações implode seus tipos. Com um cineasta à flor da pele regendo uma adaptação sua, O Estrangeiro poderia ser um desastre iminente, mas Ozon transformou a dificuldade em movimento estético e imagético. A escolha pelo preto e branco é essencial para que o rumo dos eventos seja preservado na cadência necessária; um mundo onde as rachaduras invisíveis é que determinam a ruína propriamente dita. 

Lucchino Visconti já tinha trazido uma versão da obra há quase 60 anos, liderada por Marcello Mastroianni, recebendo todos os mais merecidos louros da sua época. O que Ozon refaz aqui é ampliar o senso de apatia que se abate sobre uma história banal, ao considerar que por trás de todos os elementos compilados em cena, jaz três situações cada vez mais comuns no nosso tempo: racismo, xenofobia e a homofobia, tratados com a torpeza que se deve. Cada qual revelado não por ações ou pela verbalização das mesmas, mas por um registro intrínseco ao que Arthur Meursault representa. Com sua presença cada vez menos interessada no outro, o corpo do protagonista realiza tudo que O Estrangeiro recusa-se a fazer. Com isso, fazendo. 

Ao contrário do que alguns colegas alegam, principalmente estrangeiros, a luz registrada em preto e branco, redobra todas as sensações que o filme não sublinha. Estão em cena o torpor excessivo, as alegorias para o que é alegado no fatídico julgamento, a secura com que o calor é sugerido, a falta de intimidade que essa ausência de cor atravessa uma relação de natureza romântica. Não há sequer a fagulha de uma intensidade por parte do personagem central, tudo é cinza, até sugerindo esse clichê. A escolha soa acertada também porque estamos diante de um certo naturalismo empregado pela perda de arcabouços básicos que vinguem diante da empatia, mas que o filme torna artificial com sua falta de cores. Afinal, de onde viria tamanho desconhecimento da vida social no tratamento com o outro?

O resto do trabalho pesado é realizado por Benjamin Voisin. O jovem ator é uma das promessas já cumpridas do novíssimo cinema francês, já tendo trabalhado com o diretor em um de seus filmes menos inspirados (Verão de 85). Prestes a completar 30 anos, ele já teria entregue duas interpretações primorosas antes daqui, em Ilusões Perdidas e em Brincando com Fogo. Seu domínio em cena de um manancial de emoções, e determinariam o sucesso ou fracasso dessa nova versão, remodelam O Estrangeiro para o registro da atualidade. Voisin é um poço vazio de emoções, transmitindo literalmente na pele toda a complexidade dessa narrativa. Sua explosão próxima ao final se torna ainda mais incandescente com toda a construção anterior do ator, em trabalho de contenção impressionante. 

Dessa maneira, Ozon reafirma os ilimitados recursos de sua filmografia, com uma obra fundamental para entendermos fundamentos da idiossincrasia humana em sua forma mais vil. O Estrangeiro passa então a esse lugar de profunda encarnação de uma problemática que atinge a formação da França, dos primórdios até hoje, e que não está restrito a ela. O desconhecimento acerca de si mesmo explode quando você não consegue mais dissociar a compreensão e a empatia diante do próximo, gerando medo, violência e horror. E não estou falando de cinema de gênero, mas sim de algo que vem sendo perdido dia após dia pela sociedade, do passado e do presente. 

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