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Zico, o Samurai de Quintino: João Wainer faz mergulho pessoal

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Assisti ao documentário Zico, o Samurai de Quintino, de João Wainer, em uma sessão no Cinemark, no Botafogo Praia Shopping, em uma manhã de segunda-feira, um dia e horário incomuns para ir ao cinema, a não ser em situações profissionais. Logo ao entrar, percebi que a sala estava mais vazia do que imaginava e do que o peso de um personagem tão popular pedia. Pensei que haveria mais pessoas: mais críticos, influenciadores e até mesmo fãs. Mas não. Arthur Antunes Coimbra, o Zico, começou no futebol no final dos anos 60, nas categorias de base do Flamengo, e dali ganhou o mundo, tornando-se o maior ídolo da história do clube.

O filme de Wainer, que tem no currículo o excelente Bandida: A Número 1, outra obra com um personagem real, mas sem o caráter documental, revisita a vida de Zico a partir de depoimentos de quem fez parte dessa trajetória. Entre as falas que se destacam, temos a da esposa Sandra; a de amigos e ex-colegas de time como Júnior e Paulo César Carpegiani; a de personalidades futebolísticas como o técnico Carlos Alberto Parreira e Ronaldo Fenômeno; além dos jornalistas Mauro Beting e Daniela Boaventura. O material de arquivo também é essencial: a família guardou recortes, fitas de VHS, Super 8, e tudo isso, muito bem amarrado, ajuda a contar a saga do craque.

No momento em que Zico, o Samurai de Quintino entra na fase fora do Brasil, isso ganha um peso bastante interessante. A passagem pela Itália, onde até hoje Zico é ídolo da fanática torcida da Udinese, aparece como um período importante da carreira do ex-jogador e também como um ponto de inflexão do próprio filme; porém, é no Japão que a coisa realmente cresce. Dá para sentir o tamanho do impacto que ele teve lá, não só dentro de campo, mas na construção do futebol japonês como um todo.

Quando Zico se transferiu para o Kashima Antlers, este ainda era um clube amador, ligado a uma indústria siderúrgica e batizado de Sumitomo Metals. A sua chegada ajudou a impulsionar um complexo processo de profissionalização. Dessa forma, fica claro, para quem não sabia, que, muito mais do que uma simples aventura internacional, a passagem do ídolo rubro-negro pela Terra do Sol Nascente teve um viés fundador, bem semelhante ao papel desempenhado por Pelé, na década de 70, nos Estados Unidos. O documentário faz questão de destacar e reforçar esse caráter desbravador.

Enquanto obra cinematográfica, Zico, o Samurai de Quintino é, sem dúvida, um documentário competente, que prende a atenção. Como crítico de cinema e torcedor do Fluminense, senti o impacto, mesmo sendo torcedor de um clube rival. Entretanto, é inegável que o apelo maior é para os torcedores do Flamengo, pois Wainer segue uma cartilha tradicional, o que garante uma cômoda e confortável segurança narrativa. Assim, pode-se dizer, por exemplo, que falta a ousadia que abunda no trabalho anterior do diretor – Bandida: A Número 1 –, mas não dá para negar que ele entrega o que prometeu, e isso é um grande mérito.

A história de Zico e do documentário Zico, o Samurai de Quintino começa lá atrás, nas peladas do bairro suburbano de Quintino, e percorre um caminho que nos leva do Brasil ao Japão, passando pela Itália. E, nesta estrada pavimentada por reminiscências imagéticas e saudades urdidas em depoimentos sinceros, o momento de maior sinceridade acontece quando o próprio biografado revela, após muito refletir, que, se tivesse escutado o seu coração, não teria ido à Copa de 1986, já que, na época, estava muito longe das suas melhores condições físicas. Tocou o meu coração, e eu recomendo o filme: vale a pena.

Desliguem os celulares e boa diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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