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‘Assim Na Terra Como No Céu’ é uma partida vibrante do futebol com jornalismo

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No peito do Homem de Aço bate um coração que usa óculos. As diástoles e sístoles nesse seu miocárdio vindo de longe são movidas por uma repórter: Lois Lane. Ela não veio de Krypton. É de Metrópolis. Diferentemente do (super-)homem que a ama, não tem poderes que desafiam a lógica. Apenas um: o superpoder do lead, um verbete que, no jornalismo, traduz-se como um poliedro de cinco lados: o quê, quem, quando, como e por quê. Submetidos a esse quinteto de questões, fatos se desvelam em “verdades”, ou melhor, em versões pavimentadas em provas. É essa tal de “verdade” – palavra prostituta nestes tempos de fake news – que move a Lois Lane da peça “Assim Na Terra Como No Céu”: Nara Mônica. 

'Assim Na Terra Como No Céu
Foto-de-Andre-Mantelli

Não há Clark Kents em seu caminho, talvez pelo fato de que “O” Clark Kent, aquele que Jerry Siegel e Joe Schuster lançaram na HQ “Action Comics”, lá em 1938, e que, 40 anos depois, foi imortalizado por Christopher Reeve, não passe de um cosplay de gente (como a gente). Vindo das estrelas, o Superman precisa se fantasiar de humano para entender “o lugar de fala” do povo que escolheu proteger. O interlocutor de Nara, no texto teatral de Luiz, o craque Vicente, também acredita “ter vindo de longe”, não dos confins do Cosmo, mas de Nova Iguaçu. 

Mistura de Zico com Romário, menos disciplinado que o primeiro e um tanto menos marrento que o segundo, Vicente não tem quase nada de Kal-El (nome kryptoniano do Homem de Aço) à exceção de um super chute e de uma super ginga nos gramados. Fez tanto sucesso em sua luta para vencer nos clubes de várzea, nas divisões de escretes juniores, nas faixas C e D, que virou parte da Seleção Brasileira. Na sequência, foi jogar no exterior e somar milhões. 

No mesmo tempo em que ele ganhou mundos, Nara cruzava o planeta atrás de combates com armas de destruição em massa. Especializou-se em coberturas de guerra. Virou uma grife nessa editoria, o que já demonstra um paradoxo civilizatório, pois, saber que alguém se torna estrela a partir da desgraça global, é um sinal de falência da empatia. 

Antropólogo, cientista social, escritor e professor da UFRJ, Luiz Eduardo Soares já lidou muitas vezes com crises empáticas, pois analisou a segurança pública (e sua ausência) ao redor de sua obra. Com esse cabedal, ofereceu ao encenador Marcus Vinícius Faustini – o Arthur Miller do Cesarão, que tem Marx como seu amigo imaginário – uma situação de confronto iminente na qual uma estrela do discurso bélico (Nara) se pusesse de igual para igual com um artesão da alegria massificada (um goleador como Vicente).

A trama que Faustini usa como eixo para estruturar um pavimento narrativo dá conta de um escândalo. Vicente se meteu com Bets (apostas nem sempre legais) e precisa da ajuda de uma formadora de opinião com credibilidade para deixar a sua perspectiva do caso ecoar, para além do pleito por seu cancelamento. 
Já a trama simbólica que Faustini usa para psicologizar a ação aborda o objeto mais recorrente de sua relação com a dramaturgia: pais… em especial pais numa dimensão periférica da polis. É recorrente o debate sobre paternidade (e a escassez dela) em seu teatro, a julgar pela brilhante montagem de “O Filho do Presidente”, com Anselmo Vasconcellos, em 2017. 

Já no título, “Assim Na Terra Como No Céu” evoca forças paternas, pois o nome do espetáculo remete a gente à Bíblia que, simbolicamente, é receptáculo da palavra do Altíssimo, o Pai… o Pai Supremo. No enredo, Vicente teve um pai, professor de português, que virou metonímia, a parte pelo todo da superação. Nara, por sua vez, teve um pai que virou elipse. 

Luiz Eduardo cria uma interação entre essas almas alquebradas com um devir cronista que lembra a prosa de Orígenes Lessa (“A Morte da Porta-Estandarte”), ao mapear um mundo que poderia soar exótico com o máximo de familiaridade, fazendo a plateia se identificar com um combate onde a retórica da arrogância por vezes sufoca a dialética da sobrevivência. Nara tinha o hábito de escutar sem julgar. Nas cacetadas dos anos todos que passou nas redações, criou cera no ouvido e passou a pré-julgar. Já Vicente, que foi treinado pelo pai para ter olho de tigre, civilizou-se nas demandas da sociedade de holofotes do circo desportivo e arrefeceu. 
Essa delicada observação de Luiz Eduardo sobre o trânsito da força à vulnerabilidade ganha tônus – e momentos de esplendor – na radical entrega de Paulo Verlings a um ídolo em queda e na digressiva dinâmica de Elisa Pinheiro em dissecar subtextos. Temos dois dos mais ousados operários de Eurípedes hoje na ativa no Rio unidos numa “pelada” semiótica. 

A semiologia de Faustini se desenha na relação especular entre dois mundos, o futebol e o jornalismo, que são poderes de alta mobilização social, mesmo estando ambos em fase de declínio. Já não há mais a Seleção Canarinho dos anos 1970, nem a Máquina Tricolor de Assis, Washington e Romerito (aproveitando a menção da peça ao Fluminense), nem há mais o “Jornal dos Sports”, com sua folha rosada. E muitos outros jornais se foram com ele.

Embora não tombe para a melancolia e disfarce seu lado nostálgico numa sinergia com o Pop da atualidade, Faustini é um porta-voz teatral de resquícios de outros (grandes e belos) tempos do Rio de Janeiro – e de todo o país. Assume essa condição pois a ética é sempre matéria de suas reflexões estéticas.  Cultivou um grande apreço pelo mito de Ícaro, o sonhador grego que voou à força de asas postiças, até vê-las arder ao calor do Sol, levando-o a um tombo mortal. Esse mito é uma metáfora para o deslumbramento inerente à pratica sem consciência da atividade artística, movida só pela vaidade em vez da transcendência, ou seja, de uma práxis revolucionária. 

Desde os anos 1990, quando peças teatrais como “Capitu” puseram seu nome em evidência nas artes cênicas, esse encenador egresso de Santa Cruz sempre se manteve atento ao espocar dos holofotes, para que o brilho deles não condenassem seu voo a uma queda. Trabalhou sempre atento à máxima de Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”. Seguiu ainda o conselho de um amigo quitandeiro (cinéfilo) de Bonsucesso, que lhe mostrou “O Espantalho”, de Jerry Schatzberg (Palma de Ouro de 1973) e sugeriu que prestasse atenção ao cinema americano dos anos 1970, para descobrir meios de fazer uma poesia que fosse realista e popular, sem soar populista. Carrega consigo também uma dica aprendida nos versos de Manuel Bandeira, de que “sofrer por amor por mais de três dias é deselegante”. 

Com isso tudo na cachola, montou espetáculos de linha política (“Hoje Ainda É Dia De Rock”), saudou suas origens com um livro cult (“O Guia Afetivo da Periferia”, também transformado em peça) e fez uma série de ações sociais. Rodou filmes (“Carnaval, Bexiga, Funk e Sombrinha”, “Vende-se Esta Moto” e o ainda inédito “Ana”). Engendrou a Agência de Redes Para a Juventude, que formou gerações de jovens egressos de comunidade. Fez uma gestão histórica como Secretário de Cultura, em Nova Iguaçu, no fim dos anos 2000, criando uma escola de cinema na Baixada. 

Em 2021, assumiu o mesmo posto num Rio de Janeiro fustigado pela pandemia, onde exerceu seu cargo (até janeiro) numa lógica democrática de inclusão como nunca se viu igual nesta metrópole, no esforço de preservação dos aparelhos culturais locais, abrindo-os para outras malhas da sociedade, sempre invisibilizadas.
Esse percurso todo se materializa no palco do Teatro Ipanema, em “Assim Na Terra Como No Céu”, no amadurecimento de sua mise-en-scène, antes talhada em encenações com muitos atores e muitos personagens e hoje debruçada apenas sobre dois espíritos indômitos, Nara e Vicente. Para falar dos dois, conta com uma engenharia cênica plástica vicejante, a se destacar os figurinos da sempre infalível Carol Lobato e a cenografia dionisíaca de Fael Di Roca. 

Na sinergia com esses profissionais, sob o desenho de luz helvético de Paulo César Medeiros, em “Assim Na Terra Como No Céu”, Faustini entrega para o Teatro uma Metrópolis onde o Superman levou Kryptonita no quengo e Lois Lane perdeu a vaga no Planeta Diário. Há magia nessa tristeza. A magia da resiliência, termo que move “Assim Na Terra Como No Céu” para o alto, a avante. 

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