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O Mandaloriano e Grogu se afasta da essência da série

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Quando a Lucasfilm decidiu retomar Star Wars nos cinemas após um hiato de sete anos, uma resolução era inegociável: não causar divisão ou polêmica entre os fãs. A trilogia que encerrou a chamada saga Skywalker não é exatamente uma unanimidade positiva entre os fãs da franquia, por isso, a Disney resolveu lançar mão de um produto de reputação ilibada: a série O Mandaloriano. O filme O Mandaloriano e Grogu traz exatamente esta segurança de que o estúdio precisava para um recomeço (talvez até um reboot) do universo criado por George Lucas na plataforma em que gera mais frisson: o cinema. Afinal de contas, ambas as retomadas de Star Wars nas telonas – A Ameaça Fantasma e O Despertar da Força – provocaram uma corrida às salas, enchendo os cofres com arrecadações na casa dos bilhões. O filme de 2015 fez 2 bilhões nas bilheterias, metade do valor da compra da Lucasfilm pela Disney.

E se a estratégia é lucro certo, nada mais acertado do que apostar no principal ativo de Star Wars nos últimos anos: o pequenino Grogu, também conhecido vulgarmente como Baby Yoda (quando era chamado na série apenas de “A Criança”, devido ao fato de pertencer à mesma espécie do velho mestre Jedi). Enquanto os produtos licenciados dos novos filmes encalhavam nas prateleiras das lojas, os bonecos do pequeno sensitivo da Força vendiam aos borbotões. E as action figures do mercenário que dá nome à série também não faziam feio. Era questão de tempo para a dupla chegar aos cinemas.

Ambientado após a queda do Império, o filme acompanha o mandaloriano Din Djarin, vivido por Pedro Pascal, e Grogu em uma nova jornada pela galáxia. Em meio ao processo de reconstrução política conduzido pela Nova República, a dupla se vê envolvida em uma missão que a leva a rastrear remanescentes imperiais e senhores da guerra escondidos em diferentes regiões do universo. Dando continuidade aos eventos da série, a trama aplica a receita que fez de Star Wars o fenômeno de massa que se tornou: aventura, ação e o vínculo entre mestre e aprendiz em um cenário de guerra — ou, neste caso, marcado pelas consequências dela.

Aliás, vale ressaltar que, além de trazer Star Wars de volta aos cinemas, o filme também é imbuído de um aspecto de reencontro do público com a série que pavimentou a galáxia muito distante no streaming da Disney, e com muito sucesso. A questão é que, no afã de conquistar todos os públicos — o juvenil, os não iniciados e os fãs consolidados —, O Mandaloriano e Grogu não se arrisca e apenas reproduz o que já deu certo na franquia. Estão ali a artilharia imperial, agora usada pelos remanescentes (os andadores AT-AT enchem os olhos na tela do IMAX); a vilania dos hutts, raça a que pertencia Jabba, de O Retorno de Jedi, agora representada por seu filho e membros da família nada nobres; a grande besta que habita uma cova; e as manobras da Razor Crest e de X-Wings. Porém, essa versão cinematográfica deixa um pouco de lado o que sua contraparte televisiva tinha de melhor, e que foi responsável pela fidelização dos fãs: explorar os aspectos mais interessantes do mundo criado por Lucas e ampliá-los com explicações plausíveis, mirando em um público já crescido. Aqui, as coisas são como são porque são, e maiores detalhamentos são vistos como entrave para que cenas de ação desenfreadas se encadeiem.

Jon Favreau, criador da série — e que chegou a ser um dos nomes cogitados para comandar O Despertar da Força antes da escolha de J.J. Abrams —, era a escolha mais óbvia para o projeto. Não só por ser o dono do brinquedo, mas por ter sido ele o responsável por iniciar o Universo Cinematográfico da Marvel com seu Homem de Ferro, em 2008. Se era preciso alguém que entendesse de construir franquias, ele era o nome certo. Sua direção segue o convencional, sem grandes ousadias, e sempre prestando tributo tanto aos longas, sobretudo à Trilogia Clássica, quanto aos episódios da série. No entanto, por mais que o novo longa se venda como uma nova aventura de Din Djarin e Baby Yoda em uma escala cinematográfica, essa ambição já estava presente na série do Disney+ em diversos episódios, sobretudo nas duas primeiras temporadas. O roteiro assinado por Favreau e Dave Filoni (sucessor direto de Lucas e atual manda-chuva criativo da Lucasfilm) é estruturado em cima de situações familiares para quem acompanhou a série, sem nenhuma surpresa ou reviravolta para o arco dos personagens.

No Brasil, O Mandaloriano e Grogu ganhou o prefixo Star Wars no título para garantir o interesse do público amplo. Uma manobra compreensível, já que por aqui a franquia, apesar de popular, não tem o mesmo apelo que possui nos Estados Unidos. O nome de Pedro Pascal também pode atrair plateias, apesar de ele não tirar o capacete por grande parte do tempo e em diversos momentos ser substituído por dublês. Sigourney Weaver, a eterna Ripley de Alien, está ali para arrancar um largo sorriso dos fãs de sci-fi no papel de uma coronel da Nova República, e as curiosas participações de Jeremy Allen White e até Martin Scorsese como dubladores podem ser consideradas atrativos. Já Grogu, como era de se esperar, está ali apenas para fazer gracinha e renovar o merchandising, já que seu arco se fechou no último episódio da segunda temporada e na terceira e última já estava relegado a essa função. Essa empreitada da Lucasfilm busca resgatar, sobretudo, o espírito de matinês que tanto influenciou o Star Wars de 1977, e o objetivo foi alcançado. O longa é um entretenimento ligeiro e eficaz. O pecado é jogar tão seguro que acaba abrindo mão da essência audaciosa da série.

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