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Erupcja coloca Charli XCX à prova em desencontro de maturidades

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Um vulcão em erupção, no cinema, pode ser utilizado como um simbolismo que remeta à explosão de uma paixão, ao início de um fato histórico grave, ao sinal de um perigo iminente que, enfim, se tornou realidade. Em Erupcja, essa imagem que poderia ter uma visão de alegoria em uma narrativa, é transformada em outra forma de símbolo de dentro para fora do roteiro. Com sua atividade se mostrando um reflexo de alguns acontecimentos que estão em curso nos últimos 15 anos, o filme parte de uma apresentação de proposta inusitada para nos inserir em uma moldura cada vez mais reconhecível. De forma tão delicada esteticamente quanto baseada em alguns clichês, essa busca inicial julga romper com os lugares comuns que narrativas românticas empreendem; o resultado surpreende. 

De apresentação experimental, o que Erupcja tem entre suas características mais especiais é a capacidade de colocar um véu entre o espectador e as texturas de seu roteiro, com o jogo entre os personagens se definindo de maneira mais naturalista do que a sugestão previa. Essa ilusão permite um aprofundamento que se dá por órbitas distintas, primeira tateando no escuro de relações que parecem pouco usuais, de construção mágica, até atingir um coloquialismo que seduz os olhos de quem acompanha. O resultado é uma obra que se transmuta para uma lógica menos marcada, a princípio, mas cujo novelo é desvendado mais rápido do que se imagina. 

Erupcja conquista pela sinceridade com que seus temas são tratados, enquanto seu grupo de protagonistas é tomado de questões demasiadamente humanas. Então gradativamente o contexto fantástico cede lugar ao que é sua intencional ao roteiro e mesmo à realização: promover a arte do encontro – e quando há encontro, evidentemente há desencontro. Histórias são contadas em formato audiovisual há mais de 100 anos, e essencialmente teremos esse ponto de partida como base; o que é traduzido aqui é o tempo. Tudo o que deveria acontecer já está posto pelos seus personagens antes da história se abrir para o espectador, como se a chegada do público acontecesse intempestivamente. Já perdemos o ponto de partida, o que nos resta então descobrir? 

Bethany ainda não sabe, mas será pedida em casamento por Rob em Varsóvia. Nel ainda não sabe, mas uma nova visita de Bethany tornará suas decisões um pouco mais confusas. Rob ainda não sabe, mas o reencontro entre sua namorada e essa amiga distante mudará o rumo de coisas que ele imaginava concreto. Da natureza das pessoas surge o olhar que devemos lançar sobre Erupcja; cada um dos tipos representados por essas três figuras estabelece um lugar social e emocional entre possíveis normas, prestes a serem quebradas. Por exemplo: homens são, em linhas gerais, pouco atentos ao que não é sua vontade e seu lugar no mundo. Ou seja, as certezas de Rob deveriam ser mais frágeis, mas ele não percebe o que é muito óbvio e até meio clichê.

A direção e o roteiro de Pete Ohs garantem, no primeiro quesito, uma certa crueza de imagens e da qualidade das encenações. Há o despojamento do tratamento da luz e dos enquadramentos, o que nos carrega para um aspecto de baixo orçamento que se aproveita desse naturalismo para arraigar também no plano e na moldura de cena algo possível, quase como um documentário da vida real. Essa aproximação ao coloquial é provado no segundo quesito, que Ohs divide com seu quarteto de atores centrais – há mais um elemento além do triângulo central – e que convergem Erupcja para longe de uma ideia de sofisticação da arte por si só. Essa intrínseca qualidade do filme não está na elaboração formal, mas justamente no gradativo desprendimento das mesmas. 

No grupo de protagonistas, uma figura chama atenção por seu status extra fílmico: Charlie XCX, uma das cantoras pop mais influentes da atual geração, está em sua primeira produção de ficção aqui (e mês que vem já estreia 100 Noites de Desejo), onde em breve muitos outros virão. Ela é Bethany e seu rosto combina com algo de inconsequente que a personagem tem, entrando e saindo das vidas alheias com alguma desfaçatez, porém sem vilania. Seu trabalho corporal é sutil e cabe à essa dimensão de naturalismo que o filme quer imprimir, onde todos vivem mais do que necessariamente encenam algo – amor, desejo, decepção, medo. Dessa forma, tanto Lena Góra quanto Will Madden seguram alguma dramaticidade, no que a composição coletiva comporta as qualidades do trabalho final. 

Cabe a Erupcja então a dupla tarefa de carregar aos cinemas os fãs de uma artista de visibilidade jovem, e também ao espectador médio que não está conectado às paradas da Billboard. Ambos devem ser contemplados por essa narrativa que se escora no possível para desembaralhar corredores de aparência impossível. Uma história de amor, ciúme, perda, começos e recomeços em torno de um trio que se materializa na tela com o formato mais próximo possível. E essa acaba sendo outro artigo importante ao filme, vestir de normalidade um filme estrelado por uma artista da música. Essa combinação geralmente não é atrelada ao retrato comum, mas aqui isso acaba se mostrando um acerto e uma surpresa, bastante bem-vinda.

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