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Natal Amargo faz uso da autoficção repleta de metalinguagem

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Novo filme de Pedro Almodóvar faz uso da autoficção repleta de metalinguagem. Em Natal Amargo, o cineasta coloca suas memórias e a própria carreira no divã, em uma espécie de inflexão autobiográfica.

Almodóvar sempre foi ousado ao usar de suas obras para falar de si. Em Natal Amargo não é diferente, ele propõe uma reflexão sobre o que fez de si mesmo ao longo de sua vida. Estamos diante de criador e criatura, com direito a uma metalinguagem aguçada, colocando o publico em uma dinâmica que nos coloca assistindo a um filme dentro de outro. Engraçado e dramático, Natal Amargo traz ecos entre criador e criação de forma inesperada. Almodóvar cria uma experiência temperada com bons risos, onde os problemas são típicos de pessoas que vivem bem e têm casas de praia para escaparem da confusão diária.

O filme se passa em duas narrativas diferentes, que vão correndo em paralelo, saltando entre 2004 e 2026, transformando um personagem em outro, às vezes até um personagem em dois, ( o que, aliás, pode confundir a cabeça do espectador avoado). O longa obviamente traz a assinatura visual marcante de Almodóvar, com suas cores fortes e vibrantes com um olhar requintado para cores e contrastes, além de diálogos que transitam entre o humor inesperado e a emoção.

De fato, Almodóvar não perdeu a mão para dosar o drama com pitadas de humor. Nesse novo longa seus temas voltam as telas com mais intensidade e mais maduros. O diretor volta a falar de moralismo ao levantar uma questão, interessante: até que ponto um artista tem o direito de usar a vida alheia para fabricar suas obras? Diante desses embates, a vida real parece sempre desmontar o controle do cineasta.

Frequentemente aclamado pelas suas narrativas intimistas sobre o universo feminino e o peso singular da morte, Almodóvar constrói seus personagens com desejos, ânsias e pulsões. Eles são falhos, moralmente equivocados e até desprezíveis, mas acima de tudo humanos. Lidando com sua finitude, o novo longa consegue ser inquieto e surpreendente, além disso, como em Dor e Gloria, Natal Amargo, certamente, tem ares de uma autobiografia.

Em seu 25º longa-metragem, Natal Amargo fez a sua estreia internacional na seleção oficial do 79º Festival de Cannes. O filme chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio.

Alê Shcolnik
Alê Shcolnikhttps://www.rotacult.com.br
Editora de conteúdo e fundadora do site, jornalista, publicitária, fotografa e crítica de cinema (membro da ACCRJ - Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro). Amante das Artes, aprendiz na arte de expor a vida como ela é. Cultura e tattoos nunca são demais!

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