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“Apocalip-se” celebra a vida e as propriedades analgésicas do rock

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Tem um momento de “Tootsie” (1982), que ecoava vespertino na “Sessão da Tarde” da Globo, com Newton DaMatta a dublar Dustin Hoffman, em que se ouvia: “Eu não acredito no Diabo, eu acredito em desemprego”. O protagonista desse sucesso de bilheteria tinha um cabelinho meio desgrenhado pelo seu jeitão elétrico de falar e usava umas roupas informais de moletom que forravam a casca que criou para si a fim de se proteger do mundo. Jorge Caetano aparece igualzinho em “Apocalip-se”, tragicomédia musical crepuscular que se desfolha até desabrochar como afirmação da vida. É a peça mais celebrativa a zanzar pelos palcos do Rio desde janeiro. 

Saiba mais sobre a peça!

Jorge Caetano é um zé-pereira da arte. Canta, compõe, atua (bem pacas), faz artes plásticas… joga nas onze e marca gol em todas. A alquimia que construiu ao longo de quase 15 anos com a autora Julia Spadaccini (“A Porta da Frente”) pavimentou uma trilha de descobertas de seu patrimônio cênico através do corpo, da voz e o seu carisma tamanho GG) além das abordagens dramatúrgicas de um bicho carnívoro chamado Solidão.

"Apocalip-se"

Aliás, Jorge é um ator de escuta: ouve o mundo, em seus lamentos e em suas demandas. Retribui o que escuta com uma pantomima de acolhimento. É o homem alquebrado que se fortalece na abertura para as hipóteses que o mundo lhe oferece. Em geral, em suas escolhas, esse estado do ser aparece. Percebe-se isso mesmo nas horas em que seu personagem em “Apocalip-se” só resmunga e zanga. Há gerúndio em seus verbos. Há perseverança… ainda que preguiçosa. 

Esculpido por Spadaccini em parceria com Márcia Brasil numa reação aos saldos (e soldos) da pandemia, “Apocalip-se” flagra o momento em que um sujeito louco por música, um tal Jorge (mesmo nome do ator), ensaia sua primeira saída de casa depois da pandemia. É um ensaio que se retarda por meses de muito iFood ruim e de muitos ecos de um vazio existencial. Esse ecoar se materializa, em cena, de uma maneira extra diegética com a execução de músicas que cantam seu modo de estar e seu devir. 

A angústia desse Jorge é modulada pela relação com uma IA com ares de valquíria (ou seja, de guerreira mítica) por Nina da Costa Reis, numa atuação de lavar a alma. A confluência de forças entre esses dois atores é notável nessa ópera-rock que o próprio J. Caetano dirigiu, em duo com Alexandre Mello (um expert em encenar feridas d’alma). 

Além disso, as seis canções originais são compostas por Jorge em parceria com Felipe Storino e poderiam tocar no rádio (ou no Spotfy) de tão azeitadas que estão. Como dizia o cineasta Wim Wenders: ” O Rock ‘n’ Roll salvou minha vida”. O roquenrol da Alexia malandra de Nina da Costa é, certamente, analgésico, antibiótico, ansiolítico, complexo vitamínico. De fato, seu fator de cura, de fazer inveja ao do Wolverine, contagia a plateia numa atuação em estado de graça, que leva o vulcão Jorge à erupção. 

Cabe também dizer que Spadaccini nunca esteve tão existencialista, construindo com Márcia uma escrita que não fetichiza o viver solitário, nem sua gêmea, a solitude. O texto é mais uma crônica de um instante (do mundo) em que o isolamento foi uma solução possível. Um instante que, às vezes, pode ser largo, mas passa. O que fica são as atuações lépidas em cena.    

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