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“Apocalip-se”, de Julia Spadaccini e Marcia Brasil, no Teatro Poeira

Publicado em:

Com texto inédito de Julia Spadaccini em parceria com Marcia Brasil, o espetáculo “Apocalip-se” propõe uma reflexão poética, bem-humorada e contemporânea sobre solidão, tecnologia, saúde mental e reconexão humana. Concebida como um musical, a montagem mistura teatro, rock e audiovisual para abordar o “fim do mundo” não como destruição, mas como revelação e transformação da consciência.

No centro da narrativa está um homem solitário, vivido por Jorge Caetano — vencedor do Prêmio APTR por sua atuação em Outside (2012) —, aprisionado pela lógica do consumo e pela dependência digital. Desde a pandemia, ele permanece isolado, relacionando-se apenas com a tela do celular e com uma assistente virtual, interpretada por Nina da Costa Reis. Incapaz de estabelecer vínculos reais, encontra na música a única possibilidade de comunicação genuína com o mundo e consigo mesmo.

Mais do que anunciar um fim, o título propõe um novo verbo: “apocalipsar”. A palavra passa a significar o processo de atravessar o fim de um mundo conhecido, elaborando as marcas emocionais deixadas pelo isolamento e pela transformação das relações humanas.

Apocalip-se é um monólogo profundamente humano sobre um homem que desaprendeu a estar com as pessoas. A pandemia terminou, mas ele permaneceu isolado. Aos poucos, sua única interlocutora passa a ser uma Inteligência Artificial. A peça pergunta até que ponto a tecnologia aproxima ou apenas cria a ilusão do encontro”, resume Jorge Caetano, idealizador, protagonista e diretor do espetáculo ao lado de Alexandre Mello.

Aos poucos, a Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma ferramenta tecnológica e passa a ocupar o lugar de confidente, terapeuta e única testemunha da existência do protagonista, aprisionado dentro de casa. Entre momentos de humor, ironia e melancolia, o espetáculo investiga o que resta da identidade humana quando o único espelho disponível é um algoritmo.

A dramaturgia nasceu durante o período mais crítico da pandemia e amadureceu ao longo dos últimos anos. “A IA acaba ocupando o lugar do outro. Ela parece substituir aquilo que é insubstituível: a presença imprevisível de uma pessoa. Como ferramenta, ela é extraordinária, mas é impossível não projetarmos nela algo mágico, humano. Quando isso acontece, nossa capacidade de encontro não se amplia. A ilusão do encontro talvez seja sua maior armadilha”, afirma Julia Spadaccini, uma das autoras.

“Começamos a escrever a peça assombradas pelo ‘fim’ do teatro, no auge da pandemia. Depois percebemos que a solidão daquele personagem era também a nossa. Hoje, entendemos que aquela experiência coletiva de afastamento abriu espaço para um enfraquecimento dos vínculos e para a fantasia de que companhias artificiais poderiam preencher esse vazio”, comenta Marcia Brasil, que escreveu o texto a quatro mãos com Júlia.

Embora seja estruturado como um monólogo, “”Apocalip-se transforma a música em um segundo narrador da história. São seis canções inéditas, compostas por Felipe Storino e Jorge Caetano, que revelam aquilo que o personagem já não consegue expressar pela fala. Dialogando com a intensidade do rock e da MPB das décadas de 1960 e 1970, as músicas funcionam como o verdadeiro fluxo de consciência do protagonista.

“As canções são o lugar onde ele finalmente consegue dizer aquilo que não encontra palavras para explicar. É como se a música fosse a única linguagem ainda capaz de romper seu isolamento”, diz Jorge Caetano.

Em cena, além de Caetano e Nina, estão os músicos  Felipe Storino (guitarra e direção musical), Paula Otero(violoncelo), Maurício Chiari(bateria e direção musical) e Rafael Oliveira(guitarra), que permanecem visíveis durante toda a apresentação, reforçando a dimensão musical da montagem.

A encenação aposta em uma linguagem multimídia, com projeções audiovisuais desenvolvidas especialmente para o espetáculo por Letícia Pantoja. O cenário de André Sanches transforma o palco em um ambiente povoado por telas e dispositivos tecnológicos, enquanto a iluminação de Paulo César Medeiros, cinco vezes vencedor doPrêmio Shell, e os figurinos de Ticiana Passos reforçam o contraste entre o universo digital e a experiência humana. A direção de produção é assinada por Fábio Dobbs e Guilherme Scarpa, do premiado espetáculo “Sra. Klein” (2024), estrelado por Ana Beatriz Nogueira, vencedor do Prêmio APTR de Melhor Atriz e do Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Direção e Melhor Atriz Coadjuvante.

Para o diretor Alexandre Mello, que dirige pela sexta vez um texto de Julia Spadaccini, “Apocalip-se” discute uma das questões mais urgentes da contemporaneidade. “O texto investiga como a tecnologia construiu enormes pontes de comunicação que, paradoxalmente, acabaram nos afastando do encontro físico e da convivência real. O personagem acredita que pode substituir o outro por uma máquina, mas nós só existimos plenamente nas relações humanas. É dessa tensão entre humor, solidão e desejo de reencontro que nasce a força da peça”, afirma.

Mello destaca ainda que trabalhar novamente com Jorge Caetano foi um processo marcado pela confiança artística: “Meu papel foi organizar a experiência sensorial do espetáculo — texto, música, vídeos e interpretação — para que tudo conduzisse o espectador ao encontro desse homem. Fazer essa parceria com Jorge não é um desafio; é um enorme prazer.”

Mais do que uma crítica ao excesso tecnológico, Apocalip-se propõe uma reflexão sobre o preço da hiperconectividade e a necessidade de reconstruir vínculos reais. Ao transformar o isolamento em teatro, música e poesia, o espetáculo convida o público a desacelerar, reaprender a escutar e redescobrir a potência do encontro humano.

SERVIÇO:
Temporada: 2 de julho a 30 de agosto de 2026
Horários: Quinta a sábado, às 20h | Domingo, às 19h
Local: Teatro Poeira Rua São João Batista, 98 – Botafogo
Classificação: 14 anos. Gênero: Comédia Musical. Duração: 60 min.
Ingressos na bilheteria ou pelo Sympla:

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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