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Herança de Narcisa: Drama sobrenatural faz retrato sensível das relações familiares

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Terror de atmosfera, essa não é uma expressão nova, nem um gênero criado esse ano, mas sua utilização não é das mais populares ou utilizadas pelo cenário de horror atual. A dupla Clarissa Apelt e Daniel Dias estreia como uma dupla de diretores de ficção com Herança de Narcisa. Apelt já tinha dirigido sozinha (A Casa de Cecília), mas aqui ao lado de seu montador Dias, ela avança algumas casas nessa construção introdutória de cinema de gênero. Porque, entre outras coisas, o terror é generoso em seus temas e em seu tempo; abarca tantas reflexões sociais, e particularmente, nos últimos anos tem se mostrado um belo veículo para explorar a sociedade desconectada de reflexões. 

O filme acompanha a chegada de Ana à casa abandonada de sua mãe que acaba de falecer. Narcisa foi uma cantora e atriz de sucesso, que pareceu relegada ao esquecimento. Aliás, sua casa diz isso, sua relação com os filhos diz isso. Em determinado momento, o irmão de Ana chega também e eles passam a elaborar um luto coletivo, de uma mãe ausente não apenas fisicamente, mas alguém cujo emocional desconectou-se deles. Não está no título do filme a materialidade das coisas, mas uma herança que não é exatamente física; o que fica com a partida de um ente nosso. Essa é a investigação principal de Herança de Narcisa, perceber o que restou dessas relações carcomidas por uma mágoa que já perdeu a validade.

Herança de Narcisa não se enquadra em uma definição de terror mais frontal, como as grandes redes de cinema apreciam. Como descrito no início do texto, trata-se de uma aposta a algo possível através da ambientação, da proximidade com a psiquê humana e com os desdobramentos psicológicos de ações e personagens. Logo, é mesmo a atmosfera que define a amplitude dessa entrada do espectador, além da subjetividade de cada um. Para isso, a trilha sonora de Marcelo Conti tem as bases de fundamento corretas para envolver quem assiste o filme, sem tornar invasiva a experiência pretendida. A direção de arte, como é esperado, também nos alinhava no que o filme pretende, submergir em um recorte de passado que surge em cada elemento estético, até acessar o interior do que está sendo narrado. 

Nesse sentido, é um filme que, certamente, nasce através de conflitos entre pais e filhos (ou, principalmente, mães e filhas) estão além da dramaturgia mundial – e muito disso incluindo no horror, em narrativas como Carrie, a Estranha, por exemplo – para enraizar-se em uma problemática social. Creio ter sido algum tentáculo do machismo estrutural que disseminou a ideia da rivalidade feminina, com esse dado ainda mais aflorado dentro de casa. Herança de Narcisa brinca com o avesso disso quando Diego acusa a irmã de ter sido a preferida materna; mas a que custo? 

Para tal elemento funcionar, Paolla Oliveira está em cena de maneira dupla. Ela é Narcisa e Ana, mãe e filha, e o espelhamento é necessário para que esse jogo duplo alcance reverberação mais aguda nas cenas finais. São duas construções distintas, ambas cheia de atenção, e uma terceira surpreendente, quando Ana inicia um processo de mimese a partir do “reencontro” com essa mãe que partiu. Apesar do desempenho seguro da estrela de Papai é Pop, existe um momento do filme que nos leva ao assombro, quando Paolla encontra Rosamaria Murtinho. A veterana tem presença breve, porém impactante em Herança de Narcisa, movendo o filme para um lugar de descoberta de fantasmagoria que é perpassado pela emoção, em um plano que marca o filme. 

Appelt e Dias construíram um filme que conduz a um futuro do cinema brasileiro que não vem sendo apontado por aí na progressão que merece, que é o aumento do interesse por um risco pouco calculado. O cinema de festival já é estabelecido dentro da nossa seara, assim como a comédia popular, os documentários e as biografias. Além disso, o cinema de gênero precisa também tornar-se múltiplo, e Herança de Narcisa trafega em águas nada serenas. Se a imagem de Paolla vende o ingresso, o espectador acaba comprando uma experiência cuja tensão não é calcada em sustos fáceis ou gritos descompensados. O horror aqui é garantido por sensações que já existem entre os vivos: nossa dificuldade de autoaceitação, nosso olhar de julgamento para as atitudes do passado, a ausência de paz de espírito depois que os entes já não estão entre nós, esses são reais motivos para assombros, e que nem precisam de mal algum por perto. 

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