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A Divina Sarah Bernhardt acompanha o auge de uma mulher à frente de seu tempo

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Quem me acompanha por aqui sabe que eu nunca fui exatamente um entusiasta das cinebiografias. Sempre enxerguei esse gênero com certa desconfiança. Mas parece que os deuses do cinema resolveram brincar comigo. Nas últimas semanas, tenho sido surpreendido por algumas boas produções desse tipo e, aos poucos, revendo meus próprios preconceitos. A mais recente delas é A Divina Sarah Bernhardt, novo filme do diretor francês Guillaume Nicloux sobre aquela que talvez tenha sido a maior atriz da história do teatro moderno.

O leitor pode até estar se perguntando quem foi Sarah Bernhardt. E tem todo o direito de não saber. Estamos falando de uma artista que se tornou uma celebridade internacional em uma época em que não existiam cinema, televisão, redes sociais ou qualquer outro mecanismo capaz de transformar alguém em estrela da noite para o dia. Sarah Bernhardt conquistou fama percorrendo o mundo com suas apresentações teatrais. Passava anos em turnê e chegou, inclusive, ao Brasil, onde foi assistida pelo imperador Dom Pedro II, um de seus grandes admiradores. Aliás, o filme relembra esse episódio em uma cena curiosa, quando uma de suas assistentes lê cartas de congratulações recebidas pela atriz e, entre elas, aparece justamente uma correspondência assinada pelo monarca brasileiro.

Guillaume Nicloux também acerta ao não transformar A Divina Sarah Bernhardt em uma simples cronologia da vida da protagonista. O filme começa já no início do século XX, com uma Sarah Bernhardt, a atriz Sandrine Kiberlain, adoentada, prestes a enfrentar uma cirurgia e convivendo com os arrependimentos que a idade inevitavelmente traz. Afinal, quem não chega a determinado momento da vida olhando para trás e pensando no que poderia ter feito diferente? A partir desse ponto, ela passa a revisitar seu passado ao conversar com Sacha Guitry, filho do grande ator francês Lucien Guitry, vivido por Laurent Lafitte, que foi também o grande amor de sua vida. Nessas lembranças, conhecemos um pouco mais da mulher por trás do mito e entendemos melhor as escolhas, os acertos e os erros que moldaram sua trajetória.

Filme biográfico retrata a incansável dedicação ao teatro da figura que ficou conhecida como “A Divina”, bem como os sacrifícios corporais e emocionais que moldaram sua trajetória nos palcos.

Um dos grandes méritos do filme é justamente a maneira como ele reconstitui essa época. A fotografia de Yves Cape e o figurino de Anaïs Romand trabalham em perfeita sintonia para transportar o espectador à Paris da virada do século XIX para o século XX. Tudo parece cuidadosamente pensado para que a ambientação funcione de maneira natural, sem chamar mais atenção do que a própria história. É uma produção elegante, bonita de se ver e que consegue convencer pela riqueza dos detalhes.

Filmes que se apoiam em lembranças, arrependimentos e revisitações do passado muitas vezes acabam escorregando para o sentimentalismo exagerado. Felizmente, não é o caso aqui. A Divina Sarah Bernhardt é um filme leve e, em muitos momentos, bastante divertido. Sarah era uma mulher à frente de seu tempo, alguém que hoje provavelmente teria atitudes consideradas absolutamente normais, mas que, na passagem do século XIX para o XX, incomodava muita gente justamente por romper convenções. Essa personalidade forte rende boas situações ao lado de Lucien Guitry e também de Pitou, seu fiel secretário e escudeiro, interpretado por Laurent Stocker. Ela o trata com dureza quase o tempo todo; ele reclama sem parar, mas fica evidente que existe ali uma relação de afeto construída ao longo dos anos.

Talvez tenha sido justamente isso que mais tenha me conquistado. Um dos meus maiores receios com cinebiografias sempre foi encontrar filmes que transformam seus protagonistas em figuras inalcançáveis, quase divinas. Curiosamente, este se chama A Divina Sarah Bernhardt, mas faz exatamente o contrário. Mostra uma mulher extraordinária sem canonizá-la, sem esconder suas contradições e seus defeitos. E isso, para mim, faz toda a diferença. Começar a semana assistindo a um filme leve, bem produzido e inteligente foi uma grata surpresa. Ele estreia no próximo dia 16 e, sinceramente, acho que vale o ingresso. Eu recomendo bastante.

Desliguem os celulares e excelente diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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