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Águas Mortais: Renny Harlin eleva a maré até o limite

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Qual a diferença entre Águas Mortais e todos os outros filmes de tubarão que são lançados anualmente no circuito do audiovisual? A principal é a de que não estamos falando de um filme que parta da água como cenário inicial, e sim de um avião! Porém, quem acompanha as estreias de cinema com algum afinco (e os filmes de tubarão em particular), crê já ter visto algo do tipo – e essa pessoa não está errada. Desespero Profundo foi lançado há dois anos e mostrou isso, um grave acidente aéreo derrubava uma aeronave no oceano, e essa situação absurda gera outra, que é a invasão desse naufrágio por um grupo de famintos predadores. Ou seja, então precisamos partir para outro quadro de diferenciação desse título.

A segunda opção, essa sim, soa nova. Renny Harlin, um dos mais requisitados diretores do cinema de ação dos anos 90, está de volta ao cinema com Águas Mortais, e sua mão faz a diferença. Ao contrário do similar recente, aqui temos um grupo interessante de personagens apresentados ao espectador, pessoas com as quais nos importamos porque o diretor escalou bem seu grupo de atores e porque encenou bem seus dramas iniciais. Independente de não estar mais em tempos de A Ilha da Garganta Cortada ou Despertar de um Pesadelo, Harlin ainda dirige com categoria insuspeita para um filme modesto. Isso, certamente, resulta em uma produção cuja tensão é aproveitada em cada momento. Toda a situação do acidente não somente é bem filmada ou produzida (e poderia não ser, como disse é uma produção modesta), como sua situação é criativa visualmente, embora não sejam inéditas as imagens criadas.

Em paralelo ao que é criado no visual, no campo sonoro Águas Mortais é, surpreendentemente um produto definitivamente brega, com um apelativo recurso de trilha sonora usado no momento do acidente. Beirando o dramalhão, o filme tende a nos fazer se importar com seus personagens, depois de contar suas breves histórias, com uma péssima utilização do material. E o que deveria ser regular mostra que terá um estranho equilíbrio indo de cenas bem concebidas em um bloco a outras atrapalhadas por essa tentativa de emoção exagerada. E a cada nova sequência (ou desfecho), essa ideia se renova negativamente, indo do horror ao drama agudo, e vice versa. O resultado é um filme que nos interessa no ritmo das ondas, às vezes elevando a maré até o limite, e em outras sendo extremamente raso.

Os “queridos vilões” (ou seriam eles apenas animais importunados por humanos idiotas?) dão as caras somente na metade da produção, depois de um grupo de imagens pesadas geradas pelo acidente. Como é de se esperar em produções assim, muitas vezes eles são mais inteligentes que os humanos, o que nos leva a torcer por eles com alguma frequência. Aí lembramos que Harlin também dirigiu Do Fundo do Mar há mais de 25 anos, e que lá seus tubarões já tinham personalidade própria e muita vontade de divertir-se, antes de matar. Aqui temos um grupo grande de animais que não cansam antes de matar o máximo que puderem, independente de seus movimentos não terem qualquer lógica. Além disso, os tradicionais clichês do gênero movem nosso interesse até o final. 

Quem permite que o melodrama contamine o filme sem destruí-lo por completo é o seu elenco, ou mais precisamente dois atores – Ben Kingsley e Molly Belle Wright. Sim, o primeiro é o vencedor do Oscar por Gandhi que só pode ter falido para estar disposto a uma produção tão aquém de qualquer seriedade; ainda assim, é ele quem consegue dar dignidade ao primeiro bloco de breguices de Águas Mortais, com o primeiro grupo de mortos do filme. Já Wright é uma criança que monopoliza as atenções do protagonista Aaron Eckhart e dos espectadores também, que não poderiam imaginar que uma pequena criatura como essa pudesse elevar tanto o nível dramático coletivo em cena. Sempre compenetrada e imersa em algo que parece ser o início de um processo de luto extremo, Wright extrapola o que temos por hábito esperar de crianças, pois ela age de forma muito madura para lidar com o manancial de perdas que sofre em pouco tempo. 

Águas Mortais não os une tão rápido quanto costuma ser feito. Isso é outro dado que impede o filme de cair em lugares ainda mais comuns. Com isso também, o filme não derrapa mais raṕido do que é necessário. Caminha para um final no ápice do brega, mas antes disso permite ao espectador e os personagens do filme nos livrar de um canalha de marca maior – o Dan de Angus Sampson. É a última catarse deliciosa do filme, que espera 1h e meia para entregar o que torcemos o filme inteiro; seria lindo se a última cena do filme fosse o fim dessa desgraça. Na minha cabeça, será. 

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