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Quando o “Domostroi” sobrevive ao tempo

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Por Wagner Cinelli de Paula Freitas – Assisti ao monólogo “Só vendo como dói ser mulher do Tolstói”, do dramaturgo Ivan Jaf. O título não poderia traduzir melhor a proposta da peça: apresentar a dor, o sofrimento e a violência vividos por Sofia, esposa do célebre escritor russo, interpretada com grande intensidade pela atriz Rose Abdallah.Wagner Cinelli de Paula Freitas. Assisti ao monólogo Só vendo como dói ser mulher do Tolstói, do dramaturgo Ivan Jaf. O título não poderia traduzir melhor a proposta da peça: apresentar a dor, o sofrimento e a violência vividos por Sofia, esposa do célebre escritor russo, interpretada com grande intensidade pela atriz Rose Abdallah.

Saí convencido de que foi para lá de dolorida a vida daquela jovem que um dia disse sim no altar. Um sim que, sem que ela pudesse imaginar, a conduziu a um beco sem saída. Mais do que narrar a história de Sofia, porém, o espetáculo deu voz às mulheres de uma sociedade patriarcal em que os homens eram autorizados à violência, enquanto às mulheres cabia sofrer em silêncio.

Já tinha ouvido falar do “Domostroi“, um manual doméstico russo do século XVI, mas pouco conhecia seu conteúdo. Foi justamente a peça que despertou minha curiosidade para compreender melhor o contexto cultural em que viveram Tolstói e Sofia. Não por acaso, o texto faz diversas referências a essa obra, que durante séculos orientou a organização da vida familiar na Rússia.

Não se trata de um simples livro de conselhos domésticos. O “Domostroi” exprime uma visão de mundo baseada na autoridade absoluta do chefe da família e na submissão da mulher. Essa lógica aparece de forma explícita no capítulo 38, que orienta o marido sobre como supervisionar e punir a esposa, chegando a apresentar recomendações para que o espancamento não provoque surdez, cegueira, fraturas, perda de dentes ou, no caso de gravidez, lesões no ventre. A violência não era apresentada como desvio de conduta, mas como instrumento legítimo de disciplina.

É nesse contexto cultural que a peça convida o espectador a compreender a relação entre Tolstói e Sofia. O casal passou a maior parte da vida no século XIX, cerca de trezentos anos depois da primeira edição do “Domostroi“. O livro, portanto, já era antigo. Muitas das ideias que difundia, porém, continuavam vivas.

Seria um equívoco transformar essa constatação em um julgamento retrospectivo de Tolstói. Sua grandeza literária permanece indiscutível. Mas a genialidade não o eximia de ser produto de sua cultura. O centro da reflexão, portanto, não é o homem, mas a cultura.

O “Domostroi” está prestes a completar cinco séculos. Hoje, evidentemente, já não orienta oficialmente a vida familiar, nem mesmo na Rússia. Tornou-se um documento histórico, uma peça de museu. O desafio contemporâneo, entretanto, consiste em reconhecer quantas das ideias que ele expressava continuam circulando entre nós. A cultura muda, mas nem sempre na velocidade com que mudam as leis. Talvez seja justamente por isso que determinadas formas de dominação conseguem atravessar séculos, mesmo depois de desaparecidas as justificativas que um dia lhes deram sustentação.

Wagner Cinelli de Paula Freitas é desembargador do TJRJ e autor de “Sobre ela: uma história de violência”.

*artigo pago

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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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