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‘Visitando o Sr. Green’ equaliza dois atores em estado de graça em dramédia sobre amizade

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Maroto na hora de trançar as formas de insensatez do povo judeu (e dos muitos povos que sua arte abalroa), Isaac Bashevis Singer (1902 – 1991) foi na batata ao afirmar: “Às vezes o amor é mais forte que as convicções de um homem”. A frase promove uma autopsia em corpo vivo nas personagens de “Visitando o Sr. Green”, em nova e contagiante encenação, com um Caio Manhente em estado de graça ao alcançar uma instância de covalência com o mago Merlin das artes cênicas Elias Andreato.

Saiba mais sobre a peça!

Vê um filme chamado “O Príncipe” (2002), de Ugo Giorgetti, para ter uma medida do que esse feiticeiro das coxias é capaz de fazer ao mascar as palavras no seu estado de realismo mais brando. Seu Hocus Pocus diante de uma dramaturgia importada dos EUA, de Jeff Baron, liga átomos de fofura a um núcleo de ressentimento longevo numa estequiometria que alquimistas enferrujam para alcançar. Ele parece fazer brincando… digladiado por um jovem ator em fase de esplendor – vide a atuação de Manhente no filme “Veneza” (2019), de Miguel Falabella.  


‘Visitando o Sr Green’ teve estreia mundial em 1996 e já foi montada em mais de 50 países, em 26 línguas e 600 produções diferentes. 

Encenada pela primeira vez na América de Baron em 1996, “Visitando o Sr. Green” disseca a matéria que solidifica toda a amizade que dura para sempre: a improbabilidade. Aliás é improvável que um dono de lavanderia octogenário, ligado pela Torá ao judaísmo ortodoxo, interesse-se em ser amigo de um rapaz de 20 e poucos anos que o atropelou – sem danos. O improvável se escreve com I maiúsculo, nesse caso, pelo fato de o tal Green (ou Grimm) ter se fechado para o mundo, não só pela morte de sua esposa…, mas por um segredinho que você só vai descobrir lá no Teatro Vanucci. 

Quem viveu Green na estreia foi o Feio de “The Good, The Bad And The Ugly” (“Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo”, 1965), de Sergio Leone (1929-1989): o arlequim hebreu Eli Herschel Wallach (1915-2014). Depois, um mar de bons atores, mundo afora, assumiu o papel, em 30 anos de excursão pelo mundo, sendo montada em uns 50 países, numas 26 línguas, totalizando umas 600 produções diferentes. Paulo Autran (1922-2007) foi Green por um dia, ali por 2001.  

A estrutura armada por Baron – diretor do filmaço “The Bruce Diet”, de 1992 – põe a bola a rolar no gramado no momento em que o Sr. Green se vê obrigado a tolerar o jovem Ross, um executivo de 29 anos, em seu apartamento, por imposição da Lei. O atropelamento forçou o moço a prestar serviços assistenciais à sua vítima, comprando-lhe sopinha kasher e varrendo seu lar. 

Manhente é um Ross sempre atento ao relógio, sob a encenação melíflua de Guilherme Piva. O tempo gasto com aquele vetusto senhor parece ser um calvário, dada a aposta de Green numa progressão aritmética de conjunções adversativas em sua fala. É “não” atrás de “não”, é um “porém” atrás de outro “porém”.

No entanto, como apontava o supracitado Bashevis Singer: “A análise do carácter é o mais alto entretenimento humano”. Pouco a pouco, Ross vislumbra em Green rachaduras em sua represa de afetos. Ali, antes de forçar uma entrada, ele se abre, e revela seus engasgos.      

Na tradução sabor Ajinomoto de Gustavo Pinheiro, o texto de Baron se expande como uma tapeçaria para uma dupla via de acolhimentos, sempre assombrados pela intolerância, caminhando a narrativa – de arrancada hilária – para uma linha de dramédia acridoce. Olhos marejam diante da esgrima de Scaramouche feita por Manhente com Andreato. 

Piva cronometra, equilibra e valoriza o tempo dos dois com uma precisão de fazer inveja aos sábios helvéticos. No design de luz, Maneco Quinderé, com a assistência de André Pierre, acha a medida proustiana de temperança que os dois protagonistas perderam, no pretérito imperfeito das cacetadas da vida. 

O cenário de Chris Aizner tem a esperteza de não desenhar o lar de Green como Elo Perdido ou relicário do Velho testamento. É uma casa de pouca vida, onde o companheirismo chega para cicatrizar feridas. Tudo se narra na pressão justa, sem que nada se acelere, mesmo quando a trilha sonora “pancadão” de Guilherme Piva faz a gente querer levantar e dançar.

É um espetáculo que nos leva do crepúsculo à primavera, como canja de mãe, aproveitando a ossada da memória (mesmo a das recordações mais cortantes) como matéria-prima para pavimentar o porvir. De novo Bashevis Singer (de quem Piva deveria adaptar “Inimigos: Uma História de Amor”, correndo) se faz lúcido: “O que a natureza nos dá nunca é obsoleto. Porque o que a natureza cria contém eternidade”. “Visitando o Sr. Green” é uma peça para durar para sempre… no coração da gente.   

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