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Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte! reinventa uma franquia de terror

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Como ser diferente e, ao mesmo tempo, atender às expectativas do público? Em uma época em que os slashers voltaram à moda, franquias como Pânico e Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado ganharam novos capítulos e foram revitalizadas, parece difícil encontrar uma maneira de fazer algo novo dentro de um gênero que já foi explorado tantas e tantas vezes. Ao que tudo indica, a cineasta e roteirista norte-americana Jane Schoenbrun encontrou uma resposta em seu terceiro e aguardadíssimo longa-metragem, Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte.

A premissa da história não é alguma coisa exatamente complicada. Kris, interpretada por Hannah Einbinder, é uma jovem cineasta queer contratada para ressuscitar uma antiga franquia slasher de sucesso que, com o passar do tempo, caiu no esquecimento, começou a dar prejuízo e passou a ser acusada de misoginia e transfobia. Para fazer esse reboot, ela quer contar com Billy Presley, vivida por Gillian Anderson, a estrela do primeiro filme da fictícia franquia Acampamento Miasma. E é aí que começa a ficar interessante.

Depois de fazer muito sucesso e ser banhada pelas luzes dos holofotes, Billy misteriosamente abandonou tudo e se tornou uma personalidade reclusa. Kris consegue uma reunião com ela e vai ao seu encontro. O que ela não sabe — e que vai descobrir de maneira estupefata, assim como nós, espectadores — é que a antiga estrela vive justamente no acampamento que serviu de locação para os filmes da franquia. A partir daí, Jane Schoenbrun brinca com tudo aquilo que os fãs de slashers conhecem. Não dá para falar em um acampamento de verão sem lembrar imediatamente de Sexta-Feira 13 e do suposto afogamento de Jason. Jamie Lee Curtis, a eterna final girl de Halloween, e Neve Campbell, a protagonista de tantos filmes de Pânico, também são citadas. Os easter eggs estão espalhados pelo caminho, e a diretora não tenta escondê-los. Pelo contrário, parece se divertir com eles.

Mas onde Jane Schoenbrun consegue ser diferente? Primeiro, na metalinguagem. E ela é uma arma fundamental em Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte. Boa parte daquilo que acompanhamos pelos olhares de Billy e Kris é justamente o filme original da fictícia franquia Acampamento Miasma. Ou seja, temos dois filmes diante de nós: aquele que estamos assistindo no cinema e aquele que existe dentro da própria história e que Kris pretende reconstruir. E há ainda outra camada.

O filme fictício que a jovem diretora quer fazer é queer. E o filme que Jane Schoenbrun fez também é queer. Apresentado no último Festival de Cannes, onde recebeu boa recepção crítica, ele ganhou a Palma Queer, prêmio destinado a obras com temática LGBTQ+. A brincadeira metalinguística vai ainda mais longe porque Kris funciona praticamente como um alter ego da diretora. As duas são jovens cineastas, cresceram assistindo a filmes de terror, se identificam como pessoas queer, praticam o poliamor e não mantêm relações particularmente próximas com suas famílias. Fica difícil não enxergar o paralelo.

E existe ainda outra referência que me chamou a atenção. Billy Presley, a antiga estrela da franquia, parece ter saído diretamente de Crepúsculo dos Deuses. Ela é, de certa maneira, a Norma Desmond de Jane Schoenbrun. Assim como a personagem de Gloria Swanson, Billy vive reclusa, cercada pelas lembranças de uma carreira que já foi muito mais gloriosa. Até o visual ajuda a estabelecer essa conexão. Portanto, se o filme brinca com referências aos slashers, também dialoga com um clássico que muitos consideram um drama, mas que não estaria completamente errado se fosse chamado de filme de terror. É mais uma camada de uma obra que parece estar o tempo inteiro brincando com o cinema dentro do próprio cinema.

E não esperem respostas fáceis. Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte não é um filme interessado em explicar tudo ao espectador. Pelo contrário. Se a intenção é se afastar das franquias tradicionais de slasher, Jane Schoenbrun consegue fazer isso justamente ao abandonar a obrigação de entregar respostas para todas as perguntas. Você vai sair do cinema e provavelmente ficará quebrando a cabeça, tentando entender o que aconteceu. É isso mesmo? Foi aquilo? E sabe de uma coisa? Todas as respostas podem ser válidas.

Não existe necessariamente certo ou errado em Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte. Existe interpretação. A própria filmografia da diretora parece caminhar nessa direção. O objetivo não é explicar. É confundir. Mas confundir no bom sentido: fazer o público pensar. Eu fui assistir ao filme e passei boa parte dele com uma palavra na cabeça. Quando Kris se reúne com os produtores, alguém fala que ela está fazendo uma obra surrealista. Era exatamente essa a palavra que eu procurava. Surrealismo. Uma obra surrealista.

Eu senti falta apenas de uma coisa na nova obra de Jane Schoenbrun: um pouco mais de tensão sexual. Acho que o filme pedia. Sem essa dose extra de tensão, parece uma obra saída de uma viagem distópica pelos estertores da Nova Hollywood. Com ela, se assemelharia mais a um clássico da Boca do Lixo e talvez tivesse problemas com a classificação por parte da censura nos Estados Unidos. De qualquer forma, essa característica peculiar é reforçada pela belíssima fotografia de Eric Yue, parceiro da diretora, e esse é um longa que, definitivamente, não parece nada interessado em ser igual aos outros.

Se você espera encontrar um slasher igual a tantos outros por aí, esqueça. Jane Schoenbrun, certamente, está interessada em outra coisa. Se todo mundo vai gostar, eu sinceramente não sei. É uma proposta bastante particular e provavelmente dividirá o público. Porém, para quem gosta de filmes que não entregam tudo mastigado, que provocam, confundem e continuam na cabeça mesmo depois dos créditos finais, Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte é uma experiência que vale muito a pena.

Desliguem os celulares e excelente diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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