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Código: Vingança peita patrulhas depurando a adrenalina na ótica de Jean-François Richet

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Saudades dos tempos em que Sylvester Stallone era um dos pilares da indústria audiovisual, na primavera do action cinema, tomam conta de fãs do gênero a cada novo trabalho do inglês Jason Statham, embora sua linhagem cinematográfica pareça ainda mais próxima da aspereza de Charles Bronson, mesmo sem um bigodón para aproximá-lo do astro de Desejo de Matar (1974). Habitualmente dublado no Brasil pelo titã da voz Armando Tiraboschi, o britânico volta ao seu habitat natural em Código: Vingança (“Mutiny”), eletrizante expressão de um eixo da cultura Pop que sobrevive acossado por patrulhas morais.

Com sua ginga de Zé Pelintra habitual, Statham interpreta Cole Reed, ex-policial e militar fora dos fronts que trabalha em Bangkok, como chefe de segurança de um magnata do transporte marítimo. Quando seu patrão é assassinado e ele acaba incriminado pelo crime, Reed parte atrás dos responsáveis, numa investigação que o conduz a um cargueiro e a uma conspiração de proporções maiores.

O reforço atrás das câmeras é providencial. Jean-François Richet, realizador francês que transformou Mesrine (2008) num fenômeno em seu país e encerrou Cannes em 2016 com Herança de Sangue, conhece o peso plástico de corpos em colisão e imprime alta voltagem estética à pancadaria.

“Eu nunca me pergunto se filmar ação é fácil ou não. Só tento desenvolver temas que me interessam, sem pensar em rotulações”, disse Richet, numa entrevista ao Brasil. A frase ajuda a entender uma direção menos preocupada em enobrecer o gênero do que em explorar sua energia física.

Richet besunta-se na excelência da fotografia de Brendan Galvin, dono de uma destreza no uso da cor e de um equilíbrio notório na maneira de enquadrar a violência. Conta ainda com a montagem frenética de David Rosenbloom e Joe Rosenbloom, que faz dos 95 minutos do longa uma experiência de aceleração permanente.

O resultado encontra Statham no terreno que fez dele um signo de resistência da velha escola do cinema de ação: economia verbal, presença física e uma relação quase artesanal com a violência coreografada. Aos 59 anos, o ferrabrás que a gente aprendeu a amar lá em Carga Explosiva (2002) não precisa se reinventar a cada filme, ele trabalha pequenas variações de um tipo cinematográfico que o público reconhece imediatamente.

Código: Vingança chega, porém, assombrado por bastidores comerciais atípicos. Dois dias antes da estreia americana, o filme foi disponibilizado acidentalmente na internet por algumas horas, num vazamento que agravou a trajetória de uma produção orçada em US$ 40 milhões e que soma cerca de US$ 24,2 milhões nas bilheterias mundiais.

O acidente ajuda a dimensionar uma carreira comercial bem mais discreta que a de Beekeeper: Rede de Vingança (2024), um dos grandes acertos recentes de Statham. Ali, a parceria com David Ayer encontrou um equilíbrio especialmente eficiente entre brutalidade, humor e a mitologia particular construída pelo ator.

Aliás, Richet procura outra frequência. Em vez de copiar fórmulas de tapa na cara, transforma Código: Vingança num veículo de movimento contínuo, no qual perseguições, confrontos e espaços confinados servem à presença de um astro que parece ter compreendido algo essencial sobre sua função na tela.

Statham é, certamente, hoje um herdeiro não sanguíneo de Stallone no trono da ação popular, mas carrega algo da austeridade bronsoniana: entra em cena, resolve problemas e vai embora. Num gênero cada vez mais obrigado a justificar sua própria existência, Código: Vingança encontra prazer justamente em não pedir licença.

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