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Espermagedom, animação norueguesa, ganha dublagem com elenco do coletivo Porta dos Fundos 

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Espermagedom foi exibido pela primeira vez no Brasil na Mostra SP de 2024, e de lá pra cá os comentários acerca do que foi visto pelas pessoas transformaram o longa de Tommy Wirkola e Rasmus A. Sivertsen em uma obra de culto. Chama-se assim os filmes de temática geralmente fora dos padrões que encontram um público que os trata de maneira extremada, ou seja, um ‘cult movie’. A distribuidora brasileira que finalmente lança o filme no Brasil, acreditando em seu potencial de comunicação, fez um convite para os integrantes do Porta dos Fundos para dublar essa animação pra lá de psicodélica. Se o filme encontrará finalmente resposta a esse espaço, saberemos quando o fim de semana se encerrar; por ora, podemos dizer que, para além de tudo o que é proposto de infame na produção (e acreditem, tem um momento do filme em que você literalmente não acredita no que está assistindo!), o filme acerta alguns alvos que nem poderíamos imaginar. 

No roteiro, acompanhamos, a princípio, duas frentes narrativas. De um lado, temos Jens, um adolescente que vai para uma espécie de acampamento de férias e reencontra a menina por quem é apaixonado, Lisa, e isso dá início a um processo hormonal seu bem básico: ele quer transar! Do outro lado, temos Simen e Cumilla, um casal de espermatozoides igualmente adolescentes, que divergem quanto a necessidade da reprodução – ela quer muito, é sua meta de vida; ele quer continuar vivendo no saco escrotal sem precisar correr, e possivelmente morrer sem função. Desse núcleo, surge também Jizzmo, um espermatozoide vilão, disposto a acabar com qualquer colega para conseguir a fecundação. Essa ideia inicial já é fora do comum o suficiente, e o nível de humor que cada um extrai da obra vai de encontro ao que cada indivíduo se diverte, mas Espermagedom não está disposto apenas a apresentar sua louca premissa, mas explorá-la em alguns pontos. 

Passada a surpresa inicial (que, em tese, está apresentada em sinopse e trailer), Simen nos dá um gancho de análise, que somente depois da metade conseguimos alcançar. Ao contrário do que apregoa na faculdade que estuda – e sim, existe toda uma sociedade vivendo no escroto de um homem – Simen não apenas estuda a vida dos espermatozoides, mas todo o corpo humano. Enquanto seus colegas e professores consideram a prática inútil, o protagonista julga essencial que, no caso de fazer parte de um sistema complexo como a cadeia de reprodução, entender também como todo o processo se desenvolve. É graças a seu estudo que o grupo do qual faz parte, após a ejaculação, consegue passear pelo sistema de Lisa, Com essa saída, Espermagedom consegue ser um filme absolutamente adulto, porém igualmente didático para crianças e adolescentes, embora o primeiro grupo não seja a plateia do filme. 

É nessa contradição que reside uma das ousadias narrativas do filme, que abre seu campo de entendimento de maneiras de um lado grosseiras (e está tudo bem, é o conceito da produção), e de outro quase lúdicas. De um colorido quase sufocante, Espermagdom não sente qualquer problema de expor seus protagonistas humanos a cenas tão comuns quanto íntimas – e com isso, revelar um tanto do que filmes no geral não mostram seus personagens. Ao mesmo tempo, os protagonistas que correm para se tornar humanos são tratados de uma maneira carinhosa, abusando dos clichês das aventuras épicas. Essa contradição não apenas desenvolve uma nova camada de olhares, como retira uma proteção que costumamos tratar os tipos de live action. Ao longo da produção, que se passa em um espaço de dois dias, o que tínhamos como misterioso, acaba por desaparecer, em uma dessacralização de situações banais bastante saudável. 

Wirkola tem uma carreira bem sucedida nos EUA. Dirigiu o divertido (e sanguinário) Noite Infeliz – e também é o diretor da continuação – e o sucesso da Netflix, Ataque Brutal, esse ano. Ele se juntou ao diretor de animações Sivertsen para conceber esse retrato surreal de uma adolescência sem muitos pudores, interessada em sexo como é sabido. E de quebra, o filme ainda promove discussões bem-vindas sobre comportamento, sobre relação entre pais e filhos, sobre amizade e… bom, eu ia falar sobre o que o filme abre debate nos últimos 10 minutos, mas esse seria um spoiler que precisa ser absorvido pelo espectador sem saber o que vai acontecer. O que dá pra dizer é que, nesse momento, percebemos que os autores não estavam querendo apenas provocar gargalhadas com coisas absurdas, mas sim tocar em feridas que não existem na Noruega, mas que eles compreendem o tratamento escandaloso que irá surtir em grande parte dos países. Mas esse é um ponto que Espermagedom chega e que, na vida em sociedade, é o fim da linha dos eventos que o filme encampa, então, porque fugir da discussão?

Ainda mais disruptivo que trata-se de uma animação musicada, ou seja, existe um deboche claro com o tradicional desenvolvimento de uma animação. Ainda que sejam momentos pontuais, essas músicas levam Espermagedom a um lugar de provocação ainda maior. Estamos falando de um titulo que fala sobre sexo na adolescência de maneira descomplicada, sem reservas e que guarda para seus últimos momentos algo que Emília Perez ensaiou fazer, aqui de maneira muito mais adequada e responsável. Poderia dizer que Wirkola e Sivertsen trataram de comunicar-se com a plateia de maneira divertida, mas a responsabilidade com os temas que trata nunca saem da zona de entrega. Ou seja, somos surpreendidos por espermatozoides falantes e adolescentes em busca de perder a virgindade e ter prazer, acima de tudo – mas recheados de consciência dos seus atos. 

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