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Denise Faertes lança nova coleção na 5ª edição do ID:Rio

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Nova designer que enveredou pela moda na maturidade, após carreira construída na engenharia e na vida acadêmica, a carioca, Denise Faertes, não se prende a estações ou temporadas em seu slow fashion artsy. Cada coleção atemporal lançada é obra fechada minuciosamente elaborada, cápsula independente – com peças equivalentes a uma série de gravuras numeradas, em tiragem limitada, sem conexão alguma com tendências ou modismos, que podem ser encontradas em multimarcas como a Dona Coisa – que se desdobra em outras por tempo indefinido, enquanto houver o desejo de a criadora investigar essa rota, antes de embarcar em outra, tal qual um tema faz sentido por um tempo para um artista visual. Dessa vez, produzida em seu ateliê em Laranjeiras, montado no Rio de Janeiro em plena pandemia quando retornou da Itália, a nova coleção “Alma e corpo das ruas do Rio” parece nome de tese de doutorado e, nesse viés, talvez seja: a moda para Denise nunca é pensada à parte do território da Academia. E vai ser apresentada em desfile na passarela do ID:Rio, na praia de Icaraí, Niteroi. 

Compenetrada, a estilista se debruça em textos do cronista João do Rio e do historiador Luiz Antonio Simas, entre outros, para construir coleção que evoca o percurso que vai da Pequena África à Praça Onze na primeira metade do século 20, quando profundas transformações sociais e urbanísticas varreram do mapa o Rio antigo, daquela que, em plena Belle Époque tropical, repaginou a então capital do Brasil capitaneada pelo prefeito Pereira Passos, influenciado pela transformação arquitetônica da Paris de Napoleão III e do Barão Haussmann, à que destruiu a Praça Onze original nos anos 1940, por Getúlio Vargas, a fim de por de pé uma Avenida Presidente Vargas que tinha como objetivo reproduzir, por aqui, a versão tupiniquim da 5ª Avenida nova-iorquina. Por sinal, dois movimentos que Denise enxerga como similares ao que o Rio de Janeiro passa atualmente na gestão atual que pretende reviver o Centro. 

Pensada como um tributo à população menos favorecida que se manteve em um Centro Histórico ainda não gentrificado, “Alma e corpo das ruas do Rio” aborda importantes questões contemporâneas como diversidade e inclusão, considerando que a Praça Onze de outrora foi representativo caleidoscópio de diferentes povos e culturas, que dividiam  democraticamente o espaço, exemplo a ser revisto em dias de desglobalização mundial. “As ruas têm corpo e alma; é território de resistência, como escrito por João do Rio e pelo historiador Antônio Simas”, cita Denise, encantada com os redutos e a fauna urbana local e, ao mesmo tempo, curiosa com o movimento atual de resgate do Centro do Rio, da Região Portuária à Praça Onze.    

A inspiração para a coleção a ser desfilada vem de personagens reais, fascinantes e descritos nos textos de João do Rio (e de outros autores), refletindo o cotidiano mundano e a identidade cultural dos habitantes desse Rio de um passado nem tão remoto assim, mas que ainda se reflete nos processos de revitalização urbana de hoje. Escrita pelo cronista em 1908 “A alma encantadora das ruas” reverbera a cultura das ruas da cidade no início do século 20, focando na experiência humana e em suas diversas facetas, constituindo-se em um bom apanhado de crônicas que revelam os mais diversos e sutis aspectos da vida carioca, desde os bairros nobres até as áreas mais populares e marginalizadas, ótima argamassa, portanto, para o estilo maximalista de Denise. 

Nessa direção, para Denise essa obra de João do Rio dialoga perfeitamente com “O Corpo encantado das ruas” (2019), do professor Luiz Antônio Simas, que aparece, mais de cem anos depois do livro de João Do Rio, como o “historiador do ‘corpo’ do Rio de Janeiro”, ao contrapor as encantarias, as conversas na feira, o cotidiano da quitanda e o boteco da esquina à barbárie civilizatória. Nesse contexto, surge a magia das ruas e das encruzilhadas nesse caldeirão carioca onde perfilam e desfilam de judeus a ciganos, passando por imigrantes, capoeiristas, malandros, marujos (com muitas tatuagens), sambistas, chorões, vendedores, mães de santo, crentes da Senhora da Penha, devotos de Seu Zé Pilintra, minhotos pobres, polacas, prostitutas, jongueiras, festeiras e quizumbeiros de todos os matizes e lugares. “É o tal corpo encantado das ruas que inspira o nome da nova coleção”, enfatiza Denise Faertes. 

Além dessas duas obras, “A História da Tatuagem no Brasil”, da historiadora Silvana Jeha, tem presença seminal na pesquisa de Denise, que descobriu, através desse livro, um retrato do Brasil que engloba dois séculos ao compilar toda sorte de gente à margem da história oficial do país, reunida através da pele que os habitava: marinheiros, prostitutas, escravizados, soldados rasos, criminosos e migrantes tatuados definidos pela autora como “mapas que levam aos piratas, aos cruzados, à magia mediterrânea e às tradições que aportaram no Brasil, vindas de diversos lugares do mundo”.   

Dessa forma, dentre tantas criaturas sedutoras descobertas por Denise, ganham destaque as ‘negras de ganho’, que compravam a liberdade a partir da venda de quitutes na rua da Quitanda; e o inacreditável Madame Satã, emblemático transformista brasileiro, artista e figura marginal que desafiava as condutas sociais da época, com presença marcante na vida noturna boêmia da Lapa; assim como as quitandeiras que, em diversas versões,  ganham corpo e alma nesse recorte oferecido na passarela, através da captura subjetiva da essência dessa fascinante narrativa sobre a experiência urbana, vida cotidiana, emoções e as relações sociais que moldam o caráter das ruas do Rio de Janeiro, tudo junto e misturado às múltiplas influências que definem a personalidade trepidante de Denise Faertes, ela mesma uma judia que embarcou, como poucos de sua procedência, na observação arguta dos tipos humanos. 

Na coleção, Denise escolheu vários tipos de tecidos e insumos, privilegiando as sobras de matérias-primas nobres que seriam descartadas, usada na criação de novas tessituras exclusivas, inclusive com o uso de fitas e passamanarias para criar aqueles efeitos peculiares já característicos do seu trabalho. Dessa vez, ela reduz a presença de estampas localizadas handmade, mas intensifica as peças executadas a partir da costura de fitas e galões, criando novas padronagens listradas únicas, além de brincar com a representação de tatuagens, muito frequentas na Zona Portuária do Rio, criadas através de impressões e bordados à mão, assim como amplia o uso de técnicas de pintura à mão livre e aplicação inspiradas em baluartes da arte brasileira, como Debret, Rugendas e Caribé, inspiração para as Joias de Crioula, referências a badulaques místicos, símbolos e amuletos judaicos, imagens de sambistas e de fantasias de carnaval. Destaque para os looks que codificam as quitandeiras, assim como os chapéus e bijouxproduzidos manualmente, alguns com reaproveitamento de materiais inusitados, como antigas fitas de videocassete. 


Referências: 

Da Silva,Y., “Tia Carmem- negra tradição da Praça Onze”, Garamond, RJ, 2009

Do Rio, J. “A alma encantadora das ruas”, Companhia de Bolso, SP, 2012

Jeha, S. ”Uma História da Tatuagem no Brasil: – do Século XIX à Década de 1970”, Veneta, SP, 2023

Malamud, S., “Recordando a Praça Onze”, Livraria Cosmos Editora, RJ, 1988

Moura, R., “Tia Ciata e a pequena  África no Rio de Janeiro”, Todavia, SP, 2025

Negreiros, H., “Negras maneiras de vestir”, Editora Schwarcz S.A, SP, 2026

Simas, A., “O Corpo Encantado das Ruas”, Civilização Brasileira, RJ, 2025

@denisefaertes

Serviço: Desfile de Denise Faertes “Alma e corpo das ruas do Rio” no ID:Rio, dia 19/9 às 20h30.  / ID:Rio Festival 2026  Praia de Icaraí, quase em frente ao Clube Central – Niterói / Evento Gratuito, Sujeito a lotação.  @idriofestival

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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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