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Resident Evil: Zach Cregger entrega um universo que se recusa ao estanque

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O que Zach Cregger fez na temporada passada não é um feito comum, que todos já tenham alcançado. Um diretor de gênero, imbricado no horror de maneira frontal, conseguir um sucesso tão evidente como A Hora do Mal (independente inclusive da minha relação com a obra) e, acima de tudo, tornar o reconhecimento a uma atriz veterana algo quase unânime, não é um feito de todos os dias. Em seus sucessos recentes, Cregger passeou pelo brilhantismo com frequência, consagrou-se junto ao público e a crítica, teve uma repercussão imaginável apenas a veteranos – e ele está apenas com 45 anos – mas somente com seu filme novo, Resident Evil, ele experimenta enfim a completude da potencialidade. Ao final de menos de 90 minutos, existe a sensação clara de que absolutamente tudo foi tentado, e os acertos certamente excederam o tal hype.

Para quem reconheceu o título, sim, Resident Evil parece ser uma tentativa de ‘reboot’ da Sony da franquia de horror baseada no gigantesco sucesso dos games, que Paul W. S. Anderson comandou com perfeição durante mais de uma década. O que Cregger entrega não é uma releitura daquele objeto, mas uma denominação nova e autoral de um universo que se recusa ao estanque. À sua maneira, o filme novo resgata não o espírito da aventura que Anderson tornou marca célebre de sua versão, mas emprega ao ambiente uma assertividade no que sua atmosfera pede, na gênese. Se essa é ideia onde o sombrio precisa ser acessado, cujas perdas têm peso e o espectador sinta-se emaranhado dos seus códigos, então a madrugada pelo qual estamos à mercê no filme é apenas a porta de entrada de um apanhado de acertos coletivos. 

O filme conta com a criatividade de Cregger para construir planos de sequências que se desdobram sempre a aumentar seu escopo gradativamente, e sempre ter um esconderijo particular para a entrada de excepcionalidades. Do atropelamento inicial, passando pela chegada do policial, indo até a fazenda, o mergulho nos labirintos de Racoon City, a chegada ao hospital – é de perder a conta de quantos são os momentos de descoberta imagética em cena. Cada um desses momentos revela o paladar do seu diretor para ampliar o escopo de ideias, indo na direção não de um susto vazio, mas de uma preparação elaborada (inclusive textualmente) que só é possível com um acordo geral de entendimento. O espectador precisa vibrar na mesma conexão que o autor propõe, e essa chama é acendida por Cregger de minuto a minuto. 

Resident Evil desafia o público enxertando saídas tradicionais de um videogame, como a reprodução da primeira pessoa em tela (assim como em alguns jogos), ainda também os elementos da direção de arte que nos remete ao universo original, como o excesso de cadeados e portas que são definidores de uma semântica da coisa. Enquanto volta os olhos para seu público original (e cada vez mais atuante no mercado), que é o jovem viciado em jogar, Cregger não deixa de realizar metas relevantes para que o cinema de gênero não precise ficar refém de uma obrigação apenas com o espetáculo. O que a edição consegue aqui, que é estabelecer um contexto onde caibam a reflexão por trás da paternidade compulsória, onde o ritmo do horror siga com essa moldura também sofisticada, e um dado que um punhado de espectadores podem reclamar, que é a acertada utilização do humor na obra. 

Isso é conseguido graças ao corte afiado de Joe Murphy, colaborador habitual de Cregger, que posiciona o filme nessa linha tênue entre o humor, a corrosão visual e a humanidade que o riso carrega para a tela. O segundo elemento que merece toda a galhardia possível é o acerto do desenho do protagonista e a interpretação cheia de coração, dona de possibilidades infinitas, que Austin Abrams oferece. Graças ao que tal personagem carrega, Resident Evil vai além do que oferece um console; há o entendimento do drama que o protagonista carrega, e o arrependimento sincero de ter falado a frase errada no momento exatamente anterior ao caos ganhar corpo. Seu choro desconsolado no chão de um estacionamento é o ápice do lugar onde pode chegar um ator, que milimetricamente falando, entrega compaixão pela própria história e um poder de sedução através do riso que está arraigado do ator, e do personagem também. 

Obedecendo a “muitos comandos”, e conseguindo a proeza de acertar onde seus filmes anteriores escorregaram (como em não ser bem sucedido em duas partes diferentes), Resident Evil é um produto de envergadura estética elaborada, que não precisa deixar de lado seus atrativos populares. É uma dessas chances únicas onde enxergamos o coração pulsante de um filme de terror, porque acompanhamos o desenvolvimento de Bryan e sua via crúcis em tentar provar para sua namorada que a ama e estará ao lado dela, enquanto luta com zumbis descontrolados. Sem perder o multifoco que escolheu para si, Cregger entende que suas escolhas são as mais arriscadas, e mais uma vez ele decide não abrir de nenhuma ideia, expondo suas ambições formais. Aqui temos um filme disfarçado de despretensioso, cujo espectador de shopping vibrará com a mesma intensidade com o que eu observei em sua textura, tanto no que pretende de macro visão estética, quanto no que sua narrativa afunila para um sentido de libertação, do que se é e do que podemos acabar nos tornando. 

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