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Antártida transforma tema urgente e doloroso em suspenseAntártida

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Apesar de amar o cinema brasileiro, acho que preciso acompanhar um pouco mais o calendário de estreias, afinal, na última segunda, fui a uma cabine de imprensa em Botafogo, aqui no Rio de Janeiro, cidade que ultimamente tem parecido mais Londres do que uma metrópole dos trópicos, e assisti a um filme que não estava no meu radar: Antártida. Por não saber o que viria pela frente, essa foi uma produção que me surpreendeu bastante por alguns motivos, mas principalmente porque conjuga, em uma obra só, a urgência de um tema extremamente importante, que é a questão da violência contra a mulher, infelizmente cada vez mais em voga, e o suspense como gênero fílmico, por sinal, muito bem arquitetado e amarrado ao longo de toda a projeção.

Antártida é dirigido por Bruno Safadi, um dos talentos mais evidentes do nosso cinema nacional, mas saiu principalmente da cabeça da roteirista e diretora Cláudia Jouvin. E aí é importante dizer que ser uma obra pensada e criada por uma mulher dá a esse filme um olhar, uma camada e um tratamento que um roteirista homem sozinho não conseguiria dar. Cláudia Jouvin é a criadora, é a artífice principal do longa-metragem em questão, mas divide o roteiro com Dennison Ramalho, reeditando uma parceria de muito sucesso no filme Morto Não Fala (2018). Se Cláudia traz aqui a visão fundamental da mulher sobre o tema, Dennison colabora com sua experiência em obras de terror e suspense.

Antártida conta a história de militares brasileiros na base Comandante Ferraz, (óbvio) na Antártida. Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, é uma cientista, uma pesquisadora formada nos Estados Unidos, que se junta ao grupo que trabalha no local para estudar mudanças climáticas. Só que, desde o início, ela não é bem recebida. Um dos grandes méritos do roteiro de Cláudia Jouvin e Dennison Ramalho é o fato de que vamos vendo, desde a primeira cena com a atriz, pinceladas aqui e acolá de misoginia. O filme faz questão de mostrar como aquela cientista não é aceita ali logo de cara. E essa construção bem engendrada descamba no verdadeiro plot da trama: Inês — e aqui não é spoiler — será vítima de um crime, mais precisamente de um estupro. E, assim, a partir do momento em que ela é violentada, temos uma ótima história de mistério que tem como objetivo esclarecer esse crime hediondo.

Se a construção da tensão até a cena do crime é muito bem engendrada, após a violência, essa mesma tensão escala a níveis altíssimos. Todo o elenco masculino é colocado no rol dos suspeitos. A gente ainda não conhece direito essas pessoas, não sabemos a história pregressa delas. Desta forma, como em toda boa trama de mistério, todos podem ser culpados e qualquer desfecho parece viável. Nesse ínterim, uma das situações colocadas pelo roteiro é a relação entre a médica Marina, vivida por Leandra Leal, e o capitão Vicente, personagem de Lázaro Ramos. No primeiro contato com esse casal, percebemos que essa é uma relação tóxica. Em outra situação, Inês é tratada pelo seu futuro chefe de um jeito extremamente machista. Apesar de ela ter um currículo impecável, o sujeito a trata como se fosse qualquer pessoa, uma ajudante que veio fazer trabalhos menores no laboratório que ele comanda. Tudo isso, repito, é bastante eficaz.

O elenco é uma das coisas mais importantes de Antártida. Inicialmente, é Inês que está no foco. Todavia, logo após o crime, é a personagem de Andréa Beltrão, a capitã Elizabeth, subcomandante da base, que vai se responsabilizar pelas investigações, uma vez que, sendo um crime contra uma mulher, até o comandante Barros, interpretado por Antônio Calloni, pode ser culpado. E o roteiro nos leva a suspeitar dele, assim como de Vicente, de Viriato (Adélio Lima), de Dimas (Gero Camilo), de Josué (João Vitor Silva) e de todos os demais militares. O único senão em relação ao elenco talvez seja o mau aproveitamento da personagem de Mariana Sena. De resto, um belo trabalho de fotografia, principalmente nas cenas filmadas na Antártida, e uma esmerada direção de arte, nas tomadas realizadas em estúdio, completam bem o conjunto. Nessa toada, a história nos conduz, presos à cadeira da sala de cinema, por um caminho tortuoso de tensão e emoção.

Após o roteiro apontar para aqui e para acolá, a resolução do crime vem, claro, com uma reviravolta. Não que ela seja das mais surpreendentes, inclusive, a solução para o caso chegou a passar pela minha cabeça. Mas isso não significa que o final não tenha sido bem arquitetado. Como escrevi anteriormente, Antártida, longa-metragem de Bruno Safadi, com a marca autoral de Cláudia Jouvin em parceria com Dennison Ramalho, surpreende justamente por conseguir transformar um tema urgente e doloroso em uma trama de suspense que funciona, conduzindo o espectador até a resolução do crime. É a prova de que o cinema brasileiro pode falar de assuntos importantes sem abrir mão de construir boas histórias. E, para mim, isso já é motivo suficiente para pedir que vocês deem uma chance ao filme assim que ele estrear.

Desliguem os celulares e uma ótima reflexão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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