- Publicidade -

‘Cara-de-Barro’, um ‘Coringa’ versão ‘body horror’, é refinado como o noir das antigas

Publicado em:

Saca aquele momento de “A Mosca” (1986) no qual a orelha do Jeff Goldblum cai e ele fica a puxar uma gosma da ferida, sem se preocupar com a náusea da gente? “Cara-de-Barro” fala com essa linhagem do cinema horrorífico. Como vem dos quadrinhos, tem uma pompa plástica na direção de arte que alivia seus excessos de pus e de sangue. O requinte que se acha em seus enquadramentos está mais para o cinema noir clássico (tipo “Relíquia Macabra”) do que para narrativas de vísceras à mostra. Mas esse vilão do Batman dá medo, mesmo sendo fino.  

Seu filme, “Clayface” no original, anda alinhado com o chamado body horror, um filão (bem) lapidado pelo canadense David Cronenberg (que fez “A Mosca”) e renovado pelo polêmico “Titane” (Palma de Ouro de 2021). Essa vertente (cult) do cinema fantástico explora entranhas, artérias, tecidos corporais, músculos, fluídos. 

Segundo Cronenberg: “Todas as verdades estão no corpo. Temos frio na barriga quando em pânico. Temos febre ao sentir uma infecção. Trememos com ansiedade. O corpo flagra tudo, expõe o que encobrimos”. Nessa lógica, o longa “Cara-de-Barro”, dirigido em frenesi crescente por James Watkins (de “A Mulher de Preto”) fala do sucateamento físico (e antes dele o sucateamento moral) de quem não se adequa a padrões da sociedade do espetáculo. 

Ao ser descartado por Hollywood, após ser espancado e retalhado por um mafioso, seu protagonista, o ator em ascensão Matt Hagen (vivido pelo brilhante o Tom Rhys Harries) faz um pacto com um demônio que se traveste de progresso: a Ciência. Quer a beleza de volta a fim de ser um Apolo sem ônus de oráculo. Mas vai trocar a lucidez em prol da aparência, como o Dorian Gray da literatura de Oscar Wilde. 

Depois da vergonha que passou com “Supergirl”, o pior filme do ano (até agora), a DC achou na adaptação de um ferrabrás secundário das revistinhas do Batman uma saída para reaver o prestígio perdido. James Gunn está com a cabeça na guilhotina, após ter produzido a bobagem que foi a aventura da prima borracha de Kal-El. E a série panfletária dos Lanternas Verdes nada ajudou, apesar de ter Kyle Chandler de Hal Jordan. 

Com todos os percalços que o futuro audiovisual da editora do Superman enfrenta, “Cara-de-Barro” periga ser uma solução. No mínimo, é uma pérola em termos de eficiência estética, no cruzamento dos códigos do thriller com o terror fisiológico cronenberguiano. A sequência em que Hagen tem que abrir os olhos, rasgando a pálpebra, é de gerar calafrios.   

Esse algoz de Gotham surgiu em 1940, nas penas de Bob Kane e Bill Finger, com ecos de “O Fantasma da Ópera” 91925), inspirado em atores da caracterização sombria como Lon Chaney, Boris Karloff e Basil Rathbone. Seu nome, nos balõezinhos, era Basil Karlo e seu intuito era copiar tramas de terror para assustar a vizinhança de Bruce Wayne. 

Mais adiante, em 1961, o codinome do personagem foi aplicado a outra pessoa, Matt Hagen, um sujeito capaz de alterar a própria forma. Essas alterações eram um convite à rapinagem. 

Recentemente, a Panini Comics publicou no Brasil o álbum gráfico “Um Dia Ruim”, pilotado por artistas como Collin Kelly, Jackson Lanzing e Xermanico, combinando os perfis de Hagen e Karlo. Pautado numa montagem febril, o longa de Watkins (um dos diretores da série “Black Mirror”, responsável ainda por “Atentado em Paris”) investe nessa mesma combinação, mapeando os bastidores da indústria cinematográfica. Sua trama quer nos levar a uma viagem pela imoralidade nas relações de quem anseia pela fama. Ela tem um preço. E há sempre quem se disponha a cobrar uma paga.

Depois de ferido, Hagen recorre às pesquisas dermatológicas e carnais de uma cientista, a Dra. Caitlyn (Naomi Ackie), a fim de restaurar seu look angelical. A conexão que decide travar com o saber científico vai custar algo além de seu espírito e de sua paz. Ao ganhar o dom de metamorfosear sua aparência, ele vai atrás de vingança. Mas esta, como Seu Madruga, nos episódios do “Chaves”, ensinou pra gente: “nunca é plena, pois mata a alma e a envenena”.

Trocar de rosto é apenas uma fração de seu desejo de esculpir um novo destino, o que deflagra um comportamento nas raias da vilania. A fotografia de Rob Hardy há de tornar esse enredo um quadrinho vivo. 

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -