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Mestre Zu: Zelito Viana faz tributo à Zuenir Ventura

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Eu decidi cursar a faculdade de Jornalismo, entre outros motivos, porque gostava de esportes e queria ser repórter esportivo, mas também muito em função do glamour que permeava essa profissão. Hoje, com um curso a cada esquina e em plena era das fake news, o Jornalismo já não é mais o mesmo. No entanto, Zuenir Ventura, um dos maiores nomes da história da imprensa brasileira, é de uma época muito diferente da minha, naturalmente, em que a profissão tinha essa aura a que me referi. Uma época, inclusive, em que não havia necessidade de faculdade. Ele próprio estudou Letras e acabou caindo no Jornalismo ao ir trabalhar no arquivo da Tribuna da Imprensa. Lá, teve a chance de escrever uma pequena reportagem sobre seu ídolo, Albert Camus, e chamou a atenção de Carlos Lacerda, proprietário do veículo, que foi seu primeiro professor, como revela o próprio Zuenir no documentário Mestre Zu, do cineasta Zelito Viana.

Mestre Zu conta com depoimentos valiosos de jornalistas como, por exemplo, Miriam Leitão, Ancelmo Gois, Gerson Camarotti, Nelson Motta, Joaquim Ferreira dos Santos e Arthur Dapieve. Há também os relatos de familiares, como a irmã Zenir e os filhos Mauro e Elisa Ventura, além de outras personalidades, como a juíza Andrea Pacha, DJ Marlboro e o publicitário Lula Vieira. Nesse ínterim, duas histórias que marcaram a carreira de Zuenir mostram os dilemas pelos quais os jornalistas passam: o suicídio do médico e escritor Pedro Nava, que atentou contra a própria vida porque estava sendo chantageado por um garoto de programa, e a morte do cineasta Leon Hirszman, vitimado pela AIDS. Essas duas situações não eram de domínio público, e o dilema era decidir se, como jornalista, ele deveria revelá-las. A primeira história ele não publicou; a segunda, sim. O resultado foi que a viúva de Leon ficou sentida com ele.

Zuenir Ventura nasceu em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1º de junho de 1931. Estudou primeiro em Ponte Nova e, depois, em Nova Friburgo, já no estado do Rio de Janeiro. Adulto e trabalhando na Tribuna da Imprensa, foi para Paris graças a uma bolsa para jornalistas concedida pelo governo francês e estava justamente na cidade quando, após a renúncia de Jânio Quadros, João Goulart chegou, vindo da China. Zuenir acabou servindo de intérprete para o futuro presidente do Brasil. Posteriormente, em 1968, foi preso por três meses, dividindo a cela com o psicanalista Hélio Pellegrino e o cartunista Ziraldo. Para a filha, Elisa, dizia que estava bem, que estava feliz e que jogava basquete nas horas vagas. Ou seja, contou uma história que, de alguma forma, lembra a de A Vida é Bela (1997). Só que isso acabou traumatizando a menina, que começou a achar que o pai não voltava para casa porque estava feliz longe deles.

Mestre Zu revela que, já veterano e considerado um decano da profissão, com toda uma carreira construída principalmente na seara do jornalismo cultural, Zuenir acabou indo ao Acre para escrever sobre o seringueiro e ambientalista Chico Mendes. Depois da morte deste, escreveu uma série de reportagens que lhe rendeu o Prêmio Esso. Por causa dessas reportagens, criou um vínculo com Genésio, o menino de 13 anos que depôs contra os assassinos de Chico Mendes, e acabou se tornando seu tutor legal. Durante 40 anos, Zuenir disse a seus alunos que um repórter não deve se misturar com a notícia. Contudo, acabou levando para dentro de casa a notícia.

Zuenir Ventura foi um jornalista literato, ou seja, alguém que transitava com igual facilidade entre o Jornalismo e a Literatura. Não à toa, tornou-se um imortal ao ser eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Todavia, dois de seus livros talvez se destaquem mais do que os outros por serem mais populares e conhecidos pelo público em geral: 1968: O Ano que Não Terminoue Cidade Partida. Ao entrar para a ABL, ele foi recebido pela escritora Cleonice Berardinelli, que havia sido sua professora na faculdade, com um discurso engraçado e mordaz, que brincava com uma das situações mais corriqueiras da vida de Zuenir: a excentricidade de seu nome. Não foi uma, nem duas, mas muitas as vezes em que ele foi confundido com uma mulher, como revela um de seus amigos no início do documentário.

Mestre Zu é muito mais do que um documentário que se utiliza da técnica tradicional de entrevistas e imagens de arquivo para contar a história de seu biografado. É um exercício de não deixar a memória, em um país tão desmemoriado, morrer. E é também uma aula magna de Jornalismo pelo preço de um ingresso de cinema, além de um tributo a um personagem tão importante que, no último dia 22 de  setembro, nos deixou. Eu recomendo.

Desliguem os celulares e ótima diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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