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Razão e Sensibilidade faz tradicional leitura do cenário britânico

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Confesso que eu não era o maior dos entusiastas de uma nova versão do clássico romance de Jane Austen, porque acreditava que Ang Lee tinha feito o possível há 30 anos atrás em nos dissuadir de precisar de qualquer nova versão. Mas eis que essa semana estreia um novo Razão e Sensibilidade e, apesar da minha opinião ser mantida quanto a necessidade de uma nova versão, ela existe – e é muito boa. Ainda que não compreenda a feitura desse novo título, ele existe e pode ser apreciada em seus muitos méritos. Talvez apresentar a uma nova geração esse texto que é um dos mais celebrados livros de uma autora inesquecível, e talvez incentivar esse hábito por vezes esquecido. 

Georgia Oakley dirigiu um belo filme há 4 anos, Blue Jean, uma visão bastante complexa das relações lésbicas no mundo moderno, e era perceptível que seu talento chamaria atenção para que voos altos fossem apoiados. Seu olhar para o universo austiniano é corajoso por não tratar de maneira leviana uma obra que hoje poderia ser considerada supérflua ou demasiadamente leve. O que estava na adaptação de Lee, que era uma quentura coletiva da atmosfera, dos corpos e da textura das relações, era uma opção do diretor taiwanês em tratar tais personagens em esferas já conhecidas. A cineasta britânica coloca Austen de volta em seu lugar mais tradicional, em torno da descoberta das sombras de cada personagem e suas capacidades de sobreviverem às adversidades, incluindo a opressão social e estética. 

Assim como Hamnet na temporada passada, Razão e Sensibilidade também é uma produção britânica produzida pela Focus Films e pela Working Title, que geralmente tem colocado filtros parecidos nos filmes. Eles saem com essa aparência cuja melancolia parece demarcada em seu DNA, vide a aparência acinzentada, quase como se fosse uma estereotipação da Inglaterra assolada pelo tom nublado de sua realidade. Ou seja, era exatamente esse um dos diferenciais do filme assinado pelo diretor de Brokeback Mountain, que fez o sol invadir o ambiente de sua adaptação. Aqui, temos uma tradicional leitura do cenário britânico, ainda que tecnicamente o filme nunca decepcione; é muito acertado o que se vê, mesmo que o resultado já seja compreendido pelo cinéfilo mais experimentado. 

A narrativa acompanha a família Dashwood, cujo patriarca acaba de falecer não sem deixar uma pilha de dívidas às mulheres sobreviventes, sua esposa e três filhas. A partir desse momento, sem que isso seja externalizado de maneira verbal, fica entendido que o casamento das filhas mais velhas é uma prioridade coletiva. Enquanto Marianne é impetuosa e apaixonada, Elinor é pragmática e centrada; elas serão colocadas em cheque em torno de suas convicções. Essa é a descrição que a própria obra original já apresenta, o que o filme novo faz é apropriar-se do tempo válido e enxugar qualquer queda de ritmo. Isso transforma Razão e Sensibilidade em um projeto ágil, ainda que isso também signifique a perda de algum relevo no que é assistido. 

No elenco, essas duas protagonistas são vividas respectivamente por Esme Creed Miles e Daisy Edgar Jones. A primeira esteve nos cinemas esse ano com o belo A Cronologia da Água e aqui performa essa personagem aguda, de tom mais feérico que atriz não consegue dominar tão a contento assim, resvalando para uma nesga de histeria aqui e ali. A segunda é uma estrela de Hollywood que mostra que seu amadurecimento é nítido, em uma personagem tão difícil de composição também, no lado oposto em personalidade; introspectiva e quase cética, a Elinor de Dayse consegue abraçar o risco com tanto destemor quanto Emma Thompson no filme de 1995. No restante do elenco, os destaques são George Mckay (de 1917) e Herbert Nordrum (de A Pior Pessoa do Mundo), em interpretações marcantes. 

O resultado é aquela típica sessão que nos quebra com a sedução cinza de suas imagens e de sua narrativa, que nos envolvem indiscutivelmente. Serei sempre adepto em não remexer em algo que já foi feito, e aprovado em demasia. Se ao invés disso considerarmos encarar Razão e Sensibilidade como um passatempo mais elaborado do que a média, o filme cresce bastante. Porque acredito mesmo que uma obra icônica não precisa se apresentar como algo inalcançável, e sim arregimentar novas possibilidades. Isso é uma força narrativa, que nos obriga a não descolar de uma obra do qual sabemos todas as curvas do roteiro. 

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