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Assalto à Brasileira recria assalto a banco no Brasil do Plano Cruzado

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Lendo as críticas de Roger Ebert, aquele que, para mim, é o maior crítico de cinema norte-americano de todos os tempos, aprendi a relacionar as minhas próprias críticas com aspectos pessoais da minha vida. Ebert fazia isso muito bem, e era uma maneira de convidar o leitor a entrar naquela viagem, tentando, de alguma forma, fazer com que ele se identificasse com o que estava lendo. Só que nem todos os filmes permitem esse tipo de aproximação. Assalto à Brasileira, novo filme de José Eduardo Belmonte, talvez seja um desses casos. Afinal, nunca presenciei ao vivo um assalto a banco e muito menos fui refém. Quem sabe eu possa pensar em uma identificação com o personagem principal, Paulo Ubiratan, interpretado por Murilo Benício, um jornalista que acabou de ficar desempregado. O ano é 1987, o Brasil está em crise, a inflação altíssima e o Plano Cruzado naufragando. Ubiratan vai parar no cerne do assalto, um acontecimento baseado em fatos reais, porque estava na agência bancária para sacar seu FGTS. Como um jornalista que está procurando uma ocupação fixa há algum tempo, quiçá o encaixe passe por aí. Mas ele não é perfeito, eu sei. De qualquer modo, o longa-metragem estreia em um período pós-eleições, em que muita coisa está sendo dita e a gente sabe que, economicamente, o país não enfrenta o seu melhor momento, ainda que esteja longe de se parecer com a situação da metade dos anos 80.

Na história dirigida por Belmonte e roteirizada por L.G. Bayão, Ubiratan está dentro do banco quando o assalto é anunciado. Sete homens invadem a agência, fazem todo mundo que está lá dentro de refém e dão início ao roubo. Essa ação vai descambar em um dia inteiro de bastante tensão. O assalto acontece pela manhã. O carro-forte deveria passar às nove horas, mas não passa. O banco não tem o dinheiro que os criminosos imaginam. A polícia logo é avisada, chega ao local e cerca o prédio. Começa, então, uma negociação muito difícil. Assim, o personagem de Benício acaba servindo de mediador entre os policiais e os bandidos. Acontece que aqueles não são criminosos comuns. Eles não são profissionais. Eles são apenas pessoas desesperadas, afetadas pela crise que assola o Brasil, e que, precisando de dinheiro, partem para uma solução extremada. Se isso será um fator complicador ou facilitador, porque profissionais talvez consigam manter os ânimos controlados, mas amadores não, é o filme que vai dizer. De qualquer forma, o roteiro de Bayão funciona muito bem.

Filme é inspirado em um dos assaltos a banco mais emblemáticos do país.

Como a história se passa em 1987 e é, portanto, uma produção de época, um dos trunfos de Assalto à Brasileira é a fotografia, a cargo de Leslie Montero. Em diversos momentos, a imagem a que temos acesso parece mesmo esmaecida, tirada de uma velha fita VHS guardada no arquivo de uma televisão. Por sinal, o microfone da TV Manchete, que não existe mais, aparece em diversos momentos. É um mérito esta belíssima fotografia, uma decisão que, provavelmente, foi tomada em conjunto pela dupla Belmonte e Montero. Emular uma imagem de arquivo serve para colocar o público dentro da película, aproximá-lo da sensação de estar vivendo aquilo. Simultaneamente, um filme que tinha tudo para ser um drama apresenta diversos toques cômicos. Ele oscila entre o drama e a comédia o tempo todo, algo que alguns críticos ou espectadores podem enxergar como um defeito, mas eu vejo como uma qualidade. Afinal, a natureza daquelas pessoas que não eram assaltantes de verdade e estavam ali para pegar o dinheiro que o governo lhes devia, já que o país estava uma droga, faz a gente pensar em uma situação absurdamente cômica.

Assalto à Brasileira se associa a uma tradição de filmes de assalto no Brasil. Como não lembrar de Assalto ao Trem Pagador, de 1962, dirigido por Roberto Farias, ou de Assalto ao Banco Central, com direção de Marcos Paulo, em 2011? Salvo engano, esses são os dois filmes deste subgênero de maior destaque na cinematografia brasileira. A obra de Belmonte vem ocupar um lugar nessa tradição, acima de Assalto ao Banco Central e abaixo do intocável e imbatível Assalto ao Trem Pagador. Todavia, curiosamente, enquanto assistia à película, a associação que eu fazia não era tanto com esses filmes. Era com outra produção de assalto, um filme norte-americano chamado Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, de 1975. E a associação aconteceu pelo seguinte motivo: na película gringa, os assaltantes interpretados por Al Pacino e John Cazale também não são profissionais. Estão ali assaltando um banco em um momento de desespero. E a gente vê no longa-metragem de Lumet a mesma dualidade entre o drama e a comédia que encontramos na produção brasileira. Essa é uma referência que talvez nem todos os espectadores percebam, mas eu percebi. E, para mim, isso só enaltece o filme de Belmonte, porque gera uma comparação interessante com um clássico de um dos maiores cineastas americanos de todos os tempos.

Filme é um retrato do Brasil dos anos 1980

É preciso falar rapidamente do elenco. O núcleo principal tem, além de Murilo Benício, Christian Malheiros e Robson Nunes como os dois líderes do grupo de assaltantes; e Paulo Miklos como um comandante da Polícia Militar que negocia com Ubiratan. O papel de Benício serve para legitimá-lo não só como um dos maiores atores vivos da atualidade, mas como um dos grandes nomes da história da nossa dramaturgia. Alguém que consegue transitar com a mesma competência entre a comédia e o drama. Ele surgiu como ator de comédia e hoje é um ator dramático de mão cheia. E, quando você tem uma história que transita entre os dois gêneros, ele está totalmente em casa. Tenho que destacar também o elenco de apoio, com nomes mais conhecidos, como Vertin Moura, protagonista de um clássico recente, Sertânia, de 2020, e o ex-VJ da MTV, Luiz Thunderbird; algumas “revelações” como Yohama Eshima, Laura Luz e Fernando Mais; além de intérpretes mais tarimbados, Augusto Madeira e Fernanda de Freitas, em participações pequenas, porém muito legais. Esse elenco coeso é uma das melhores coisas do cinema brasileiro no ano de 2026.

Se eu recomendo Assalto à Brasileira? Sim, demais. Já em relação àquele gancho inicial sobre o qual discorri, de fato, ele me permite uma identificação com o jornalista, apesar de, como escrevi anteriormente, nunca ter testemunhado ou ter estado no cerne de um assalto a banco. Contudo, uma associação entre a crise do Brasil em 1987 e a insegurança econômica de uma nação em permanente ebulição política pós-eleições, provavelmente seja um gancho mais pertinente para essa aproximação.

Desliguem os celulares e excepcional diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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