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Cavalo Selvagem 9: Martin McDonagh fala de amizade em meio ao caos e a melancolia

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Na semana em que os americanos foram às urnas para renovar parte do Congresso Nacional e do Senado e eleger 29 novos governadores, estreia nos cinemas do Brasil e do mundo um filme que nos faz lembrar o quão nociva pode ser a intervenção dos Estados Unidos, a autoproclamada terra da liberdade, em democracias estrangeiras. Cavalo Selvagem 9, dirigido e roteirizado pelo cineasta britânico Martin McDonagh, conta a história de dois agentes da CIA, o veterano Chris, interpretado por John Malkovich, e Lee, papel de Sam Rockwell. A trama se passa no Chile, às vésperas do golpe de Estado que depôs o presidente marxista Salvador Allende e levou ao poder o general Augusto Pinochet. Chris é parte da história viva, mas não tão viva, neste momento, da agência de inteligência central americana. Digo não tão viva porque ele tem uma doença terminal, um câncer, e pouquíssimo tempo de vida. Simultaneamente, começa a apresentar sintomas agudos de senilidade e a não se lembrar de parte de sua própria história. Uma história que, entre outras coisas, reza a lenda, teria envolvimento com o assassinato do presidente John Kennedy e com o golpe de Estado no Congo Belga, que também levou à morte do presidente Patrice Lumumba. Diante desse quadro, Lee o leva para uma viagem à Ilha de Páscoa. Eles devem ficar cinco dias por lá, mas apenas um deles voltará. Feita com o consentimento do chefe da dupla, MJ, interpretado por Steve Buscemi, o responsável por toda a operação da CIA na América Latina, essa é, ao mesmo tempo, uma viagem de misericórdia, para aliviar a dor de um homem que está nos seus últimos dias, e um plano para assassinar friamente alguém que se tornou uma pedra no sapato da agência.

Martin McDonagh, como escrevi anteriormente, dirige e roteiriza o filme. E isso não é novidade. Desde suas primeiras obras, o britânico tem essa salutar mania de dirigir o que escreve. E não existe ninguém melhor do que ele para transformar em imagens todas as palavras que estão postas no papel. Claro que essa premissa valeria para qualquer cineasta, só que McDonagh é um diretor peculiar. Ele faz uma comédia que incomoda muita gente — vejam bem, não se esqueçam que estamos diante de um filme que tem como pano de fundo um golpe de Estado e faz menções a outras passagens nada bonitas da história americana em relação ao restante do mundo. O humor de McDonagh, ácido, inteligente e politicamente incorreto, talvez não fosse tão bem reproduzido em forma de frames e imagens por outro realizador. E se ele o reproduz tão bem, isso se deve obviamente ao fato de conhecer o material, afinal foi ele quem o escreveu.

Acontece que os filmes de Martin McDonagh, como tudo na vida, foram mudando ao longo do tempo. Em suas primeiras obras, Na Mira do Chefe, de 2008, ou Três Anúncios para um Crime, de 2017, temos mais ação e menos diálogos, ainda que os diálogos sejam fortes e marcantes. No entanto, de um tempo para cá, e aí é o caso de Os Banshees de Inisherin, de 2022, e de Cavalo Selvagem 9, os filmes estão mais melancólicos e com uma ação mais pontual. Em compensação, os diálogos, que seguem fortes e marcantes, estão mais verborrágicos. E isso faz com que a dupla Malkovich e Rockwell se destaque roubando a cena. Cada participação conjunta dos dois é de uma delícia verborrágica. Rockwell meio que toma o lugar que, em outros filmes, foi de Colin Farrell como o ator fetiche do diretor. Todavia, o papel principal é mesmo de John Malkovich, o veterano que eu, pelo menos, não via há muito tempo em cena. Ele dá um show na pele de um personagem em busca de algum tipo de redenção e, desde já, se candidata a uma indicação ao Oscar, quem sabe, com grandes chances de vitória.

Corrobora para o sucesso desse duo de texto e direção a fotografia de Ben Davis, outro velho conhecido de Martin McDonagh. O fotógrafo britânico já trabalhou com o cineasta em vários filmes e, portanto, também conhece bem a linguagem e o modo de trabalhar deste. Alternando closes – inclusive de cavalos – com imagens mais amplas e distantes, vale destacar a beleza dos diversos frames noturnos. Entretanto, o que mais chama atenção são algumas imagens que parecem ter sido realizadas com uma Super 8, imagens granuladas que farão o público sentir o clima da época e mergulhar nas entranhas de uma obra passada em 1973. E isso vem bem a calhar porque o personagem de Rockwell, Lee, está o tempo todo com uma máquina na mão. Ou filmando, ou fotografando. Então, é como se essas imagens de Super 8 tivessem sido capturadas pela própria câmera do agente da CIA. O acerto é perfeito.

Voltando ao verborrágico texto de McDonagh, é necessário alertar o público para algumas pérolas que podem incomodar algumas pessoas. Esse é o caso, por exemplo, de uma ilação feita por Chris: segundo ele, países como França, Suíça e Holanda, que produzem queijos de qualidade, são países gays. Ou então a ideia maluca que o IRA colocaria a foto de um anão com uma bola de basquete na tampa de uma caixa com uma bomba para aguçar a curiosidade dos soldados ingleses. Essas são algumas das muitas coisas que, apesar de serem politicamente incorretas, ao saírem da boca de Malkovich soam de maneira incomodamente deliciosa. Agora, qual a razão do título Cavalo Selvagem 9? Esse é um ponto que o texto deveria explicar. E a verdade é que não explica. Vejam o filme e voltem aqui. É fato que não faltam cavalos na Ilha de Páscoa, mas o porquê desse continua sendo um mistério para mim. Se alguém tiver uma teoria, estou pronto para ouvi-la e aceitá-la.

Por fim, preciso dizer que recomendo Cavalo Selvagem 9, um filme que arrancará, sem dúvida nenhuma, risos da plateia. Muito provavelmente não serão risos homéricos, escrachados, mas risos pontuais. Ele provocará incômodos? Com certeza, porém isso não chega a ser uma novidade na trajetória de Martin McDonagh. Nenhum dos seus trabalhos anteriores foi uma unanimidade ou obteve um consenso crítico. Nem mesmo os premiados Três Anúncios para um Crime e Os Banshees de Inisherin. Logo, com este novo filme não será diferente. Contudo, como se trata de uma grande produção, penso que vale a aposta, mesmo pagando ingressos caros, ainda mais se vocês tiverem a oportunidade de assisti-lo em uma sala com tela bastante ampla e som de qualidade como a do cinema em que foi realizada a cabine aqui no Rio de Janeiro.

Desliguem os celulares e excepcional diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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