Nossas histórias nunca são só nossas. A vida é um emaranhado de encontros e as recordações de uma pessoa estão sempre interligadas àqueles que cruzaram seu caminho. Não só as pessoas, aos lugares também, pois, os espaços também têm memória.

O Teatro Rival é um grande personagem nessa narrativa, tendo marcado e cruzado tantas vidas e sido palco de tantos encontros. Lar dos Leal, que dedicaram grande parte de sua existência a arte, o teatro foi, e é, um enorme reduto da memória de um tempo. Leandra Leal passeia por sua infância vivida pelos bastidores do teatro e do seu entorno onde sua vida cruza a de tantos artistas que passaram por ali dentre os quais as protagonistas do espetáculo Divinas Divas.

O documentário, que é a estréia de leandra leal na direção, aborda a trajetória de 8 artistas: Rogéria, Jane Di castro, Waléria, kamile K., Fujica de Haliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigite de Búzios. Essas mulheres representam o início do movimento trans no Brasil. Ao reunir essas histórias Divinas Divas consegue retratar, não só as memórias de leandra Leal, mas também, as memórias do Teatro rival, além das memórias dessas oito mulheres incríveis, resgatando um momento da nossa história. Esse filme é um retrato de um tempo e vai muito além da individualidade, nos encontra como sociedade enquanto registra a trajetória dessas mulheres extraordinárias.

Com cenas belíssimas, a fotografia de David Pacheco é, muitas vezes, de tirar o fôlego. E o filme leva o público, rapidamente, do riso às lágrimas ao acompanhar de maneira muito intimista a montagem do espetáculo, enquanto entra nas vidas e lembranças dessas personagens. Outro grande acerto é a montagem de Nayara Ney que conseguiu de todo o material coletado dar forma de maneira extraordinária à essa narrativa que poderia ter tomado tantos caminhos mas que encontrou um caminho lindo e delicado e que de forma muito eficiente faz o equilíbrio entre a narrativa cinematográfica e o teatro.

Ser travesti no Brasil em 2016 é um exercício de força e resistência. Entre números e estatísticas de violência de gênero, dezenas de mulheres travestis e trans perdem a vida no nosso país anualmente. Sem a opção da vida artística, abraçada magnificamente pelas protagonistas do documentário, a grande maioria dessas mulheres têm que recorrer a prostituição, não como escolha, mas como única opção de sobre vivência. Qual a diferença de hoje para a década de 60? O filme conversa com as histórias de vida dessas mulheres que são a vanguarda do movimento travesti no Brasil que surgiu em meio a ditadura militar. E, à medida que o tempo passa vamos nos sentindo cada vez mais íntimos enquanto elas falam sobre ser mulher e se assumir, sobre o processo de aceitação, a família e a infância, as dificuldade e a persistência, o processo de transformação o corpo e a adaptação, o medo e a ausência dele, sobre amor e sexualidade. Em meio a tudo isso temos o momento histórico e é como lançar um brilho no passado pelo olhar das divas.

Um filme que fala tanto sobre memória e passado, traz a tona, o que pode ser considerado um de seus grandes fios condutores, o envelhecer. A grande rivalidade entre imagem e conteúdo aparece e questiona como é envelhecer enquanto artista. Segundo elas, as estrelas não tem idade e não importam as debilidades trazidas pela idade, porque elas são artistas e o artista morre em cena. E, de agora em diante elas estarão eternamente em cena, pelo competente olhar de Leandra leal, serão eternizadas por esse documentário que é uma obra de arte.

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