Há poucas semanas escrevi a crítica sobre um filme nacional que estreara, Teu mundo não cabe nos meus olhos, onde abordei a falta de criatividade e de encaixe de um tema tão sensível quanto comum, que é a deficiência visual. A tendência de autores e diretores em tentarem transmitir esperança através da visão literal do mundo, pela formatação da imagem, em detrimento à sensibilidade que a ausência deste sentido traz ao indivíduo que a porta. E nesta crítica o comparei a outro filme recente, Por trás dos seus olhos, ambos com uma trama parecida, embora tratamentos distintos. Uma pessoa que perde a visão na infância e vê numa cirurgia a esperança de cura. Após procedimento e poder enxergar novamente, ambos os protagonistas dos dois filmes, sofrem complicações que os fazem retornar à cegueira. Este plot, ao meu ver, é batido. E é aí que entra, finalmente, Esplendor,  para minha grata surpresa e felicidade, um respiro no tema.

Misako (Ayame Misaki) é uma tradutora de filmes produzidos para deficientes visuais. Eis que um dia, em uma das sessões de exibição de um filme, ela conhece Nakamori (Masatoshi Nagase) um fotógrafo que está sofrendo uma perda gradativa de visão. Eles se aproximam diante desta paixão que ambos têm pelos seus trabalhos, e a medida que a doença se acelera ela vai se envolvendo mais com ele. Um acervo de fotos de Nakamori funciona como ferramenta de lembrança para ele, ao passo que leva Misako a conhecê-lo mais profunda e intimamente.

Ao mesmo tempo, diante das várias atribulações que sofre na vida pessoal, Misako se torna cética em relação ao mundo e as esperanças, especialmente quando ao lado de Nakamori, vivencia o injusto destino das coisas, especialmente ao ver que ele perde a felicidade e dá lugar a uma irritação e inquietude diante das mais simples coisas. E é nessa pequeno espaço inquieto da vida dos dois que se desenvolve uma trama muito bem escrita.

Quando digo acima que Esplendor foi um respiro em meio a obras com o mesmo tema, me refiro a menção do título do filme que já diz o que ele é. Naomi Kasawe, diretora e roteirista do filme, de nome original Hikari, soube atingir a originalidade que faltava para filmes que tratam deste assunto que é de fato delicado. Escrever sobre um universo que nós não vivenciamos, como o da cegueira, requer muita pesquisa e sensibilidade. E não só para escrever, como para transmitir. E trazer isto numa cineasta tradutora de filmes para deficientes visuais é uma metáfora muito interessante do próprio trabalho.

Um mecanismo interessante são as tomadas de câmera, com ângulos subjetivos e câmeras de mão. A trilha é bacana e complementa com delicadeza momentos chave do filme. A produção francesa é de 2017 e foi exibido no Festival de Cannes.

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