Um dos assuntos mais atuais no mundo é a situação dos refugiados, que deixam seus países em guerra na África ou Oriente Médio para tentar uma vida melhor em outro lugar, majoritariamente, na Europa. Esta é, sem dúvida, uma temática interessante, no entanto, deve-se ter muito cuidado na maneira como ela será abordada. Infelizmente, este não é o caso do longa francês Boas Intenções.

Dirigido por Gilles Legrand – que também escreveu o roteiro em parceria com Léonore Confino -, esta dramédia acompanha o dia-a-dia da professora Isabelle – interpretada pela veterana Agnès Jaoui -, uma mulher com um senso humanitário exacerbado que dá aulas de francês para um grupo de refugiados que ainda não dominam o idioma e é neste ponto – ou seja, já de início – que os problemas começam.

A grande questão aqui é que o roteiro jamais busca se aprofundar no arco do grupo de estrangeiros que fugiram de seus países, em vez disso, o longa apenas apresenta estereótipos de todas as culturas ali presentes. Então, o brasileiro Thiago (Nuno Roque) é apresentado como uma pessoas de capacidade intelectual quase nula, que não consegue sequer diferenciar as cores do semáforo e vive usando uma camisa da seleção.

E este viés um tanto quanto ofensivo se estende a outras culturas. Por exemplo, a búlgara Miroslava (Giedré) é retratada como uma barraqueira que só pensa em sexo, a jovem chinesa Chuang Mu (Chantal Yam) é um poço de ingenuidade do qual todos conseguem se aproveitar. E a lista só cresce – o que é contraditório, uma vez que, logo em uma das primeiras cenas, Isabelle debate com os alunos justamente acerca de xenofobia e estereótipos – nem quando surge uma espécie de “competição” entre ela e Elke (Claire Sermonne), uma nova professora alemã, o filme não consegue deixar de usar recursos rasos e ofensivos para fazer humor.

Além disso, o arco familiar da professora também não é bem desenvolvido. Isabelle é a que está “pior de vida” em sua família de classe média alta preconceituosa e soberba – quem tenta lidar melhor com a “compulsão humanitária” é seu marido, Adjin (Tim Seyfi), que também é um imigrante, porém ele, assim como os dois filhos adolescentes do casal, já não aguenta mais o fato de Isabelle se preocupar e tentar salvar todos o mundo, mas não ligar para si mesma ou para a própria família.

Esta não um tema novo, mas ainda dá para fazer algo com ele – se o assunto for devidamente desenvolvido, o que não é o caso. Jaoui se sai muito bem como uma mulher idealista, mas meio sem-noção e sem filtro, porém, o grande problema desta produção é a abordagem – a usada aqui, por baixo de uma fantasia de abnegação e solidariedade, soa tão soberba quanto a família de Isabelle, retratando todos os imigrantes (e até mesmo uma francesa analfabeta) como burros, incapazes e primitivos, enquanto os cidadãos franceses nativos são inteligentes e superiores.

Contudo, o filme não é de tudo ruim – se o espectador conseguir ignorar tudo isso que foi dito acima, há cenas engraçadas no longa. Como, por exemplo, a ceia de natal da família de Isabelle, que pede a todos que, em vez de comprarem presentes uns para os outros, façam uma doação para alguma iniciativa social, e, obviamente, inicia-se uma competição para ver quem está fazendo a maior boa ação.

Assim, a dramédia de Gilles Legrand pode até ter tido todas as boas intenções do título e mostrar que os países devem encontrar formas de receber os refugiados e imigrantes, porém, elas se perdem em meio a muitos estereótipos culturais e raciais que buscam fazer humor, mas que deve ser engraçado apenas para franceses pouco conscientes, pois, para as etnias retratadas ali, soa ofensivo. É uma pena, porque havia muito potencial ali.

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