Com uma bem sucedida carreira na atuação, o mexicano Gael Garcia Bernal volta a se aventurar da direção com o longa Chicuarotes, que participou do Festival de Cannes deste ano. Trata-se de um drama que acompanha dois jovens – Cagalera (Benny Emmanuel) e Moloteco (Gabriel Carbajal) – que vivem em uma periferia mexicana e tentam ganhar algum dinheiro apresentando-se como palhaços na rua e em transportes públicos, no entanto, quando não conseguem faturar, eles recorrem ao crime para obter lucro.

Desta forma, ao longo da primeira metade do filme, o roteiro – escrito por Augusto Mendoza – consegue contrapor muito bem essa a faceta cômica e violenta da dupla – liderada por Cagalera; seu parceiro, aliás, aparenta ter algum tipo de deficiência mental. Com isso, o primeiro ato possui uma aura que mistura uma certa inocência e fantasia pueril, que lembra muito os clássicos dos anos 80, como Conta Comigo, E.T. e até mesmo a atual “Stranger Things”, seja na interação entre as personagens, seja no design de produção ou na cinematografia, a qual, por vezes, utiliza-se de luzes e pisca-piscas para dar um ar lúdico aos momentos em que a dupla protagonista fala sobre seus sonhos e desejos.

Por outro lado, também há uma certa acidez e picardia – por exemplo, a cena de abertura lembra muito o tom da primeira cena de Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, já apontando para a mescla de gêneros que a produção pretende abraçar. Porém, pelo menos inicialmente, esta dualidade se dá de forma mais fluida, uma vez que o verdadeiro conflito da trama só surge após a metade da projeção. Até então, nota-se um grande preocupação acerca da construção daquele universo – que é muito bem realizada: locação, personagens, diálogos e arcos são todos muito críveis.

Isso faz com que esta primeira metade corra com muita fluidez e crie uma conexão entre o público e os dois rapazes – principalmente com Cagalera, que tem mais destaque, apesar de ser o mais moralmente repreensível. Contudo, no encaminhamento para o terceiro ato, o longa muda drasticamente de tom, tomando um rumo cada vez mais pesado e melancólico – chegando a ser incômodo em muitas cenas, em especial, no clímax. Conforme o enredo segue em direção à conclusão, já não há mais resquícios do humor ácido – e até um pouco ingênuo em alguns momentos – que permeia o primeiro e o segundo ato.

Aliás, a direção de Bernal é competente em mostrar que a trama se desenvolve a partir das escolhas dos rapazes – muito mais de Cagalera -, o que ajuda a amenizar esta virada de tom. No entanto, o que sustenta o filme são as atuações – todas impecáveis. O destaque é de Benny Emmanuel, que tem o carisma necessário para bancar um anti-herói, mas Carbajal, mesmo tendo menos tempo de tela e quase não tendo falas, consegue cativar a audiência por causa da inocência quase infantil de sua personagem – que, de certa forma, tem um toque de Chaplin. A propósito, é Moloteco e sua maquiagem de palhaço que protagonizam a mais bela – e triste – simbologia do longa, nos últimos minutos.

Mas, ainda há outros destaques, como Leidi Gutiérrez – que interpreta Sugheili, interesse amoroso de Cagalera e seu exato oposto, sendo uma jovem responsável e honesta -, Dolores Heredia – que dá vida à Tonchi, a sofrida, mas obstinada, mãe da personagem de Emmanuel e domina todas as suas cenas, principalmente no último ato -, Daniel Giménez Cacho como o asqueroso antagonista Chillamil e Enoc Leaño na pele de Baturro, o pai alcoólatra e abusivo do protagonista. Não há um nome fraco sequer no elenco.

 Assim, Chicuarotes – um termo que significa “pimenta” ou “teimoso”, mas também é o nome dado aos habitantes de San Gregório Atlapulco, na periferia da Cidade do México – possui doses de comédia, ação, suspense, mas é, acima de tudo um drama melancólico e amargo sobre escolhas, crescimento, a influência do meio sobre o indivíduo e, especialmente, a perda da esperança – algo que fica muito claro nos dez minutos finais, mostrando que, às vezes, a tão aguardada e sonhada “luz no fim do túnel” é uma saída, porém, nem sempre é para o lugar que se espera ou se deseja. É um filme que mexe com sentimentos difíceis, mas que rende alguma reflexão.

 

 

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