O espetáculo, com direção e texto de Renato Santos, mostra, a partir da memória musical do casal, os 56 anos de amor entre Zélia Gattai (Luciana Borghi) e Jorge Amado (Pedro Miranda). Eles moraram, durante 40 anos, na casa do Rio Vermelho, atual Memorial, espaço de referência para Salvador, onde os escritores recebiam, de forma acolhedora, artistas nacionais e internacionais como Pablo Neruda, Vinícius de Moraes, Glauber Rocha, Tom Jobim, Jean-Paul Sartre, João Ubaldo Ribeiro, além de lideranças religiosas locais e políticos. “A encenação é realista, histórica. O espetáculo segue uma cronologia, que vai desde o primeiro encontro do casal, na década de 40, até a despedida de Zélia Gattai da casa do Rio Vermelho, onde está tomando providências para fazer da casa, um memorial”, conta Renato.

A principal referência do texto foram os livros escritos pela autora, mantendo-se assim uma estrutura memorialista, com uma adaptação em formato de narrativa direta de lembranças emocionais. Na direção foi construído um arcabouço de interpretações com análise dos personagens de Jorge Amado. A personagem Zélia, ora pode ser apaixonada como a Dona Flor, ora guerreira como Tereza Batista ou mesmo subir o tom em defesa da cultura afro brasileira como Pedro Arcanjo, personagem principal do livro Tenda dos Milagres de Jorge Amado. “Falar de uma grande mulher, um grande homem, uma linda história de amor que se confunde com a história de lutas políticas, sociais e culturais no Brasil do século XX é o objetivo de nosso espetáculo. Falar de Zelia Gattai e Jorge Amado é falar de arte, cultura e delicadeza”, diz Maria Siman, coprodutora do espetáculo.

O repertório musical do espetáculo constitui o universo do casal, incluindo canções que Zélia gostava de cantar em casa, além de músicas da época como “eu sei que vou te amar”, sucessos que marcaram a vida deles. As músicas da peça são como personagens, dialogando com as cenas e conduzindo a memória e as histórias. São músicas dos amigos que frequentavam a casa, e reforçando este clima íntimo e familiar, alguns instrumentos estarão presentes no cenário da peça. As cenas poderiam acontecer tanto na cabeça de Zélia, como nas páginas de seus livros. “Não tem muito arranjo. Decidimos fazer uma coisa bem simples, um espetáculo de bolso com tudo tocado e cantado em cena, para acompanhar e fazer um espetáculo bem intimista, próximo à contação de história, que seria Zélia na casa do Rio Vermelho contando a história da vida deles”, revela Pedro Miranda.

A música era muito presente na Casa do Rio Vermelho, onde Zélia Gattai adorava cantar ritmos diferentes. “Paloma Amado disse que sabia como estava o humor de sua mãe pela música que ela estava cantando. Se a Zélia estivesse cantando ópera, era porque o dia estava tenso”, revela Luciana. Zélia, que se auto intitulava uma contadora de histórias, começou a escrever aos 63 anos, sendo considerada uma grande memorialista. A autora dizia que era preciso viver muito, amadurecer bastante, para ter maior compreensão do ser humano e estar despida do sentimento de inveja e de revanche. Escrevia com liberdade e com o coração. Luciana Borghi imprime, no espetáculo, a voz macia, simpática e o jeito simples da autora de um dos maiores sucessos da literatura brasileira, o romance “Anarquistas, graças a Deus”.

O cenário também de Renato Santos é intimista, conduz o espectador ao sentimento de despedida, pois espalhadas pelo palco, estão caixas de papelão usadas para guardar alguns objetos que pertenceram ao casal: máquinas fotográficas, discos de vinil, instrumentos musicais, cadeira de balanço, fotografias e máquina de escrever, que trazem memórias afetivas e contracenam com os personagens. O que inspirou e norteou a criação da luz foi a paixão e a sensibilidade que permeia a história. “Tentei transmitir sempre a atmosfera acolhedora da Zélia e do Jorge Amado”, descreve o iluminador Luiz Fernando. A figurinista Goya Lopes concebeu o vestido de cena, referendado nos bordados que Zélia gostava. “Foi uma pesquisa baseada em bordados dos países que Jorge e Zélia visitaram”.

“No dia 2 de julho do ano de 2016, assisti pela primeira vez a um trecho do espetáculo Na Casa do Rio Vermelho. O dia era o mais apropriado, centenário de Zélia Gattai Amado, inspiradora de Luciana Borghi e Renato Santos para este espetáculo. O dia era dedicado à escritora e fotógrafa ítalo-paulista baiana, minha mãe. De repente, surge Luciana/Zélia, igualzinha uma à outra, a mesma doçura, a mesma força, o mesmo rosto bonito e delicado. E porque não dizer que o canto era igual, o amor e os ciúmes também. Estava de mãos dadas com minha filha Mariana, a primogênita, a que se parece com a avó. Os dedos se apertaram, chorávamos de emoção. Estou na maior felicidade porque muita gente poderá conhecer mais de minha mãe, esta mulher formidável, e o fará pelas mãos delicadas de Luciana Borghi, mãos, rosto, voz, sensibilidade”, relata Paloma Amado, filha de Jorge e Zélia.

Serviço
“A CASA DO RIO VERMELHO – O Amor de Zélia e Jorge”
Teatro Petra Gold (Endereço: Rua Conde de Bernadotte, 26 – Leblon)
Temporada: 19 de outubro a 10 de novembro
Sábados e domingos, 17h
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 12 anos

Foto Claudia Ribeiro

 

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