Pessoas são estranhas quando você é estranho“, esse pequeno verso do The Doors dá um gostinho do que Coringa representa. Um dos vilões mais famosos de todos, criado por Jerry Robinson, sendo imortalizado nas mãos de vários artistas (como Alan Moore em Piada Mortal, e Frank Miller em O Cavaleiro das Trevas), assim como Jack Nicholson e Heath Ledger, agora Joaquin Phenix incorpora o palhaço em um novo longa impecável. Um dos integrantes iniciais da produção foi Martin Scorsese, mas o cineasta se retirou para focar em sua próprio produção O Irlandês, contudo é possível sentir seu toque. Muitas cenas relembram o espírito de Taxi Driver, Um Dia de Cão, e até O Rei da Comédia. O filme é uma obra-prima por si só, que necessita de entrega do público, ele pede para que você se abra a essa experiência, e ao fazê-lo valerá a pena.

Todos os trailers já deixavam claro que atuação de Joaquin como Arthur Fleck, seria um ponto central, o que de fato é. O personagem possui uma síndrome que em momentos de estresse ele ri involuntariamente, algo fora de seu controle, e tais cenas fincam fundo no peito por conta da atuação genial de Joaquin, ele ri ao passo que parece chorar. Além dessa aspecto dramático, há os momentos de glamour que o personagem passa, o momento de glória, deleite e realização, em que a expressão deprimente afunda na escuridão de profundo orgulho e vaidade. Se existe algo leve que concede um pequeno respiro ao público é o personagem Zazie Beetz, mostrando-se outro acerto de elenco. A aparição de Robert De Niro é a influência mais forte de Scorsese, e agindo como personagem provocador.

O diretor e roteirista do filme, Todd Phillips, tem como obra mais conhecida a trilogia Se Beber Não Case, e conseguiu fazer um filme tão profundo, maduro e real. Existe momentos de glamourização a barbárie, mas eles não vem do filme e sim do personagem, é o Coringa que se autoidólatra. O filme toma suas responsabilidades devidas sem perder o foco da crítica social que ele pretende fazer. O Coringa é fruto de uma sociedade doente, não só ele, mas ele representa o pior que alguém torturado, abandonado, e ignorado pelo mundo pode se tornar, ao passo que o roteiro não o exime de culpa. Ele é um doente e uma vítima, e mesmo assim continua responsável por seus assassinatos. O discurso final do personagem é tão real, capaz de fazer qualquer pessoa criar uma ligação com ele, pois todas as pessoas são horríveis, sendo tanto vítimas quanto abusadores ao mesmo tempo. Todas partes técnicas são perfeitas, os enquadramentos de glória aos de opressão, a trilha sonora crescente e desoladora.

A estratégia de Todd foi muito astuta. Produzir um projeto totalmente autoral com um plano de fundo de histórias em quadrinhos, onde ele fala mais da sociedade do que de quadrinhos. O fã do Coringa das revistas não vai se desapontar porque além de ligar Coringa ao Bruce Wayne, e mostrar a origem do Batman, o longa reúne tudo que temos de referência sobre o personagem, como a tese do Piada Mortal, o talk-show de O Cavaleiro das Trevas, e a fala constante de Heath Ledger: Eu sou um agente do caos. Quando o caos reina, quando apenas um dia ruim destrói a sociedade, o homem que conhecido como Arthur Fleck morre, ascendendo das trevas o Coringa.

 

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